PROFÍCUAS PARCERIAS

Em comemoração aos nove anos de existência, nosso espaço apresentará colunas diárias com distintos e gabaritados colaboradores. De domingo a domingo sempre um novo tema para deleite dos leitores do nosso espaço.

RAUL BOEIRA E MÁRCIA BARBOSA - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Lançado recentemente, “Cada qual com seu espanto” é a primeira parceria fonográfica entre Raul Boeira e sua esposa Márcia Barbosa, atestando que a sintonia entre ambos paira para além da vida afetiva.

INTUITY BORA BORA JANGA

Siga a sua intuição e conheça aquela que vem se tornando a marca líder de calçados no segmento surfwear nas regiões tropicais do Brasil. Fones: (81) 99886 1544 / (81) 98690 1099.

EM NOVO DVD, A BANDA PEQUI CONVIDA JOÃO BOSCO E NELSON FARIA

Em seu segundo DVD, o bem sucedido projeto de extensão e cultura da Escola de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) busca suplantar as adversidades com muito trabalho, talento e parceiros pra lá de especiais.

RENATO BARUSHI E SEUS REMENDOS

A princípio nas plataformas digitais, o novo álbum do cantor, instrumentista e compositor mineiro reafirma seu talento a partir de diversos nuances.

SENHORITA XODÓ

Alimentos saudáveis, de qualidade e feitos com amor! Culinária Brasileira, Gourmet, Pizza, Vegana e Vegetariana. Contato: (81) 99924-5410.

OS AMANTICIDAS - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Batizada a partir de uma das faixas presente no disco Às Próprias Custas S.A (1983) do cantor e compositor Itamar Assumpção, Os Amanticidas chegam como titulares no time da nova vanguarda paulista.

domingo, 25 de setembro de 2016

SR. BRASIL - ROLANDO BOLDRIN

MARTINHO DA VILA LANÇA PRIMEIRO DISCO DE INÉDITAS EM NOVE ANOS

"De bem com a vida" tem formato de cordas, pouca percussão e parcerias


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Martinho da Vila, 78 anos, acaba de fazer um dos grandes discos de sua trajetória. Na mão contrária da superpopulação de instrumentos e produções que tomam as gravações de estúdio, ele tira quase tudo para fazer um álbum bastante limpo que, a princípio, seria ainda mais "intimista", conforme conta: 

– Eu só queria um cavaquinho, um violão e eu mesmo fazendo um ritmo. Muito arranjo prejudica o recado que a letra deve passar, prejudica até a melodia. Hoje em dia, está tudo ritmado demais. Se deixar, fazemos samba apenas para as pessoas dançarem.

O novo disco de Martinho é De bem com a vida, com músicas inéditas depois que o sambista passou nove anos sem um novo trabalho conceitual. Se estivesse nos anos em que as gravadoras imortalizavam canções, várias delas ficariam para a posteridade. Além do formato de cordas e pouca percussão, Martinho conta com parceiros de luxo (como João Donato, Jorge Mautner e Arthur Maia) e com a produção de André Midani, o lendário ex-diretor das gravadoras Philips e Warner, que estava há três décadas longe dos estúdios. 

– Quando o convidei, ele respondeu dizendo que estava há muito tempo sem ir para o estúdio. E que nunca havia feito um disco de samba – disse o produtor.

Pois o álbum que reconduz Midani ao mercado e Martinho às inéditas é inspirado. Escuta, cavaquinho!, a primeira, é fruto de uma parceria com Geraldo Carneiro, na qual o violão faz uma declaração para o cavaco. Na sequência,Choro chorão é um chorinho de 1976 e, Danadinho danado (com Zé Catimba) foi lançada pela cantora Simone em 1995.

O clássico Disritmia, lançado pelo sambista em 1974 no disco Canta canta minha gente, dá dois frutos no novo repertório. O primeiro veio de um pedido da cantora Roberta Sá, chamada Amanhã é sábado, que ela lançou em Delírio, de 2015. Roberta queria que Martinho fizesse uma canção, desta vez, para uma mulher cantar. Ele aproveitou e criou Disritmia às avessas, com a mulher chegando exausta do trabalho, pedido colo ao marido. "Estou um bagaço, amor / Preciso de colo / Preciso de colo amor, estou em bagaços".

Com Carlinhos Vergueiro, Martinho fez Desritmou, outra cria de Disritmia. "Encontrei meu ex-amor / A mulher que eu sempre amei / E jamais deixei de amar / Mesmo estando distante / Ela me abriu os braços / Com sorrisos me saudou / Eu fiquei emocionado / Meu coração desritmou". Mas a tal mulher se revela outra, modificada pelo tempo, e o narrador se entrega à decepção.

Aos poucos, Martinho paga uma conta que pendurou em 1975, quando lançou a música que iria lhe dar mais dores de cabeça na vida: Você não passa de uma mulher. O feminismo no início de sua militância apontou o machismo do sambista em uma letra difícil de ser defendida mesmo por quem não via maldade no sambista. "Olha a moça inteligente / Que tem no batente o trabalho mental / QI elevado e pós-graduada / Psicanalizada, intelectual / Vive à procura de um mito / Pois não se adapta a um tipo qualquer / Já fiz seu retrato, apesar do estudo / Você não passa de uma mulher (viu, mulher?) / Você não passa de uma mulher (ah, mulher)". Hoje Martinho diz que, mesmo tendo feito a música de propósito para responder à patrulha que se armava contra os sambistas, não teria usado a expressão infeliz, "você não passa".

– A música fez muito sucesso, mas sofreu também muita resistência. Era a época de um feminismo que queria masculinizar a mulher, e eu acabei fazendo essa música para provocar mesmo. Penso hoje que, em vez de 'você não passa', eu deveria ter usado algo como 'não se esqueça' –admitiu.

O samba, como o rap, sempre foi machista, lembra Martinho:

– O país sempre foi, e os compositores sempre foram mais homens. Basta lembrar de Amélia (de Mario Lago). 

Além do novo disco, Martinho passou pela Bienal do Livro de São Paulo, na última quarta, para falar sobre seu novo romance, Barras, vilas e amores, sua terceira ficção dentre os 14 livros que já lançou. 

– Criei uma história fictícia, mas muito possível de acontecer.

BARRAS, VILAS E AMORES
Autor: Martinho da Vila Ed.: Sesi (216 págs., R$ 42)


Fonte: Estadão Conteúdo

sábado, 24 de setembro de 2016

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior


SÉRIE DOSE DUPLA IV – “A VIOLEIRA”


Elba – a violeira


Inspirado no musical “Pobre Menina Rica”, de Vinícius de Moraes, Miguel Faria Jr dirigiu o filme, comédia musical, “Prá Viver um Grande Amor”, protagonizado por Patrícia Pilar, Djavan e grande elenco.

O filme, de 1984, me veio à mente exclusivamente por contar em sua trilha com uma canção – “A Violeira” -, de Tom Jobim e Chico Buarque – que adoro cantar, cantarolar quando esqueço a letra e, quando dá na telha, botar na vitrola para ouvir com Elba, Mônica Salmaso e Chico Buarque, entre outros que a gravaram.

“A Violeira”, de Chico Buarque e Tom Jobim, com Monica Salmaso:



Desde menina
Caprichosa e nordestina
Que eu sabia, a minha sina
Era no Rio vir morar
Em Araripe
Topei como chofer dum jipe
Que descia pra Sergipe
Pro Serviço Militar
Esse maluco
Me largou em Pernambuco
Quando um cara de trabuco
Me pediu pra namorar
Mais adiante
Num estado interessante
Um caixeiro viajante
Me levou pra Macapá
Uma cigana revelou que a minha sorte
Era ficar naquele Norte
E eu não queria acreditar
Juntei os trapos com um velho marinheiro
Viajei no seu cargueiro
Que encalhou no Ceará
Voltei pro Crato
E fui fazer artesanato
De barro bom e barato
Pra mó de economizar
Eu era um broto
E também fiz muito garoto
Um mais bem feito que o outro
Eles só faltam falar
Juntei a prole e me atirei no São Francisco
Enfrentei raio, corisco
Correnteza e coisa-má
Inda arrumei com um artista em Pirapora
Mais um filho e vim-me embora
Cá no Rio vim parar
Ver Ipanema
Foi que nem beber jurema
Que cenário de cinema
Que poema à beira-mar
E não tem tira
Nem doutor, nem ziguizira
Quero ver que é que tira
Nós aqui desse lugar
Será verdade
Que eu cheguei nessa cidade
Pra primeira autoridade
Resolver me escorraçar
Com tralha inteira
Remontar a Mantiqueira
Até chegar na corredeira
O São Francisco me levar
Me distrair
Nos braços de um barqueiro sonso
Despencar na Paulo Afonso
No oceano me afogar
Perder os filhos
Em Fernando de Noronha
E voltar morta de vergonha
Pro sertão de Quixadá
Tem cabimento
Depois de tanto tormento
Me casar com algum sargento
E todo sonho desmanchar
Não tem carranca
Nem trator, nem alavanca
Quero ver que é que arranca
Nós aqui desse lugar



“A Violeira”, de Chico Buarque e Tom Jobim, com Elba Ramalho


Além da letra típica, o xote gostoso, com sotaque da região, a saga contada na letra leva-me a muitos cantos e me relembra o Nordeste inteiro. Vou escutar de novo.

Se ainda assim, quiserem ouvir pelo letrista, que continuo a considerar um bom intérprete, apesar de tudo, ei-lo:


Quebrando o modelo do ‘Dose Dupla’, dessa vez não me contive e reproduzo três versões do mesmo mote.

O que acham?

CURIOSIDADES DA MPB

Diversos foram os parceiros de Vinicius de Moraes, até porque, para ele, a parceria era a consolidação de uma amizade. Em “Gente Humilde”, por exemplo, o poeta insistentemente pediu que Chico Buarque participasse da obra, que o fez com os versos “Pela varanda flores tristes e baldias como a alegria que não tem onde encostar”.

Tom Jobim, talvez uma das mais famosas parcerias musicais do país, trabalhou com Vinicius na trilha do espetáculo “Orfeu da Conceição”. Além dessa, a dupla leva a autoria dos sucessos: “A Felicidade”, “Chega de Saudade”, “Eu sei que vou te amar” e a pouco conhecida “Garota de Ipanema”, que foi a música mais tocada e regravada entre os anos 2008 e 2012, de acordo com o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição).

Como dissemos antes, muitos foram os parceiros dele. Confira uma listinha com alguns dos mais importantes nomes que se juntaram a Vinicius: Adoniram Barbosa, Antonio Maria, Alaíde Costa, Ary Barroso, Antonio Madureira, Azeitona, Baden Powell, Carlos Lyra, Claudio Santoro, Fagner, Francisco Enoé, Francis Hime, Garoto, Haroldo Tapajós, Ian Guest, Jards Macalé, João Bosco, Marília Medalha, Moacir Santos, Mutinho, Nilo Queiroz, Paulo Soledade, Paulo Tabajós, Pixinguinha, Toquinho e Vadico.

JARARACA, 120 ANOS

músico violonista, compositor e humorista


(Maceió, 29 de setembro de 1896 — Rio de Janeiro, 11 de outubro de 1977)


José Luís Rodrigues Calazans, o Jararaca, foi um violonista, cantor de emboladas, compositor e emérito letrista brasileiro, nascido em Maceió, faleceu aos 81 anos na cidade do Rio de Janeiro. Era filho do poeta e professor muito conhecido Ernesto Alves Rodrigues e começou a tocar sua viola aos 8 anos de idade, inspirado em seus irmãos que também eram violeiros e seresteiros. Ainda criança conviveu muito com os boiadeiros que vinham das Minas Gerais, onde ouvia diversas estórias, que mais tarde iriam influenciar bastante a sua música. Em 1915 começou atuar juntamente com um grupo teatral na cidade Piranhas, em Alagoas. Dizem também que integrou o bando de Lampião por quase dois anos, e no início da década de 20 resolveu tentar a carreira artística.

Integrante da dupla Jararaca e Ratinho, uma dupla musical formada por José Luis Rodrigues Calazans, oJararaca , e Severino Rangel de Carvalho, o Ratinho(Itabaiana/PB, 13 de abril de 1896 — Duque de Caxias/RJ, 8 de setembro de 1972). 

Severino Rangel, o Ratinho, começou a tocar ainda criança na Banda Musical de Itabaiana, no Estado da Paraíba, em 1914 mudou-se para Recife onde integrou a orquestra sinfônica local tocando trompete, saxofone e ainda dava aulas numa escola de aprendizes.

Por volta de 1919, Severino Rangel (Ratinho) e José Calazans (Jararaca) se conheceram quando passaram a integrar o Bloco dos Boêmios. Pouco tempo depois em 1921, formaram o grupo “Os Boêmios” e tempos depois o grupo passou a ser conhecido como “Os Turunas Pernambucanos”, onde cada um dos integrantes adotou o nome de um animal, foi quando José Luiz resolveu adotar o nome de Jararaca.

Com o novo conjunto, cantando “cocos” e “emboladas” com seus trajes típicos, percorreram diversos lugares e, incentivados por Pixinguinha, acabaram indo para o Rio de Janeiro em 1922. Depois que o grupo se desfez, José Luiz e Severino Rangel resolveram formar a dupla Jararaca e Ratinho e conheceram o sucesso quando passaram a cantar emboladas, fazendo apresentações satíricas e humorísticas, em São Paulo.

Seus principais sucessos foram Saxofone, por que choras? (1930), choro de Ratinho, Meu pirão primeiro (1932), batucada da dupla, e Mamãe eu quero (1937), marcha carnavalesca de autoria de Jararaca. 

Seu primeiro disco aconteceu em 1929, através da gravadora Odeon. Em 1937, Jararaca compôs a clássica “Mamãe Eu Quero” em parceria com Vicente Paiva e seu sucesso foi tanto que ultrapassou as fronteiras brasileiras.

"Mamãe eu quero" caiu na graça dos ianques a partir da versão da portuguesa naturalizada brasileira, Carmem Miranda, famosa no cinema de Hollywood, e ganhou mais de vinte uma versões em inglês, especialmente a difundida internacionalmente na voz de Bing Crosby.

Com suas anedotas, causos e adivinhações calcadas no espírito troçador que tinham os verdadeiros artistas, deixaram mais de 800 discos de 78 rpm e dois LPs onde alternavam números musicais com vasto anedotário.

Além de cantores e compositores, eram também humoristas. A dupla protagonizou o filme No Trampolim da Vida, de 1946 e o filme Loucos por Música, lançado em 1950.

Nos anos 60 e 70, a dupla participou de alguns programas de televisão, como Balança mas Não Cai, Uau e Alô Brasil, e Aquele Abraço. Depois da morte de Ratinho, Jararaca trabalhou no programaChico City, na Rede Globo, no papel do cangaceiro Sucuri e assim continuou sua atuação até a sua morte em 1977.

Para ouvir mais, composições de José Luís Rodrigues Calazans, o Jararaca:


- Gato cabeçudo (1929)




Para ouvir mais, JARARACA E RATINHO:

- catirina (versos do folclore) - gravada em 1930

- Acende a Luz (193?)

- Bambo do bambu (1940)

- Sapo no Saco (1940)

- A LALÁ TÁ CÁ (1944) - Gravação Odeon Disco 78 rotações

- LÁ VAI DESAFIO (1948) - Gravação Odeon Disco 78 rotações




Outras parcerias: 

- Zé Barbino (1940) - Composição de Pixinguinha e Jararaca

- Meu pirão primeiro (1944) - Jararaca e Valfrido Silva - c/ Bezerra da Silva 

- O Boto - c/ Família Jobim, composição de Jararaca & Tom Jobim



No cinema:

- “Mamãe Eu Quero” (1937) - do Filme 'Garota Enxuta' (1959)




Links relacionados:











Fonte: http://www.cultura.al.gov.br/

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

CANÇÕES DE XICO


HISTÓRIA DE MINHAS MÚSICAS – 40



SOLNASCENÇA

Poeta Pernambucano, radicado em São Paulo, deu-me o prazer de parceirizar essa bela canção. A intrpretação é de Flávio Leandro e está inserida no FORROBOXOTE 6 – BAIÃO: DO REINO ENCANTADO DO NOVO EXU ÀS VEREDAS DO RESTO DO MUNDO E ADJACÊNCIAS

SOLNASCENÇA
Xico Bizerra e Biguá

tu é fulô fulorando,
um pé-de-amor brotando nos canteiros da canção
é água fresca do riacho,
carinho colhido em cacho no roçado da emoção
é a poesia e é o mote,
é o cheiro no pé-do-cangote, a reza rezada com fé
é a chuva chovida em fevereiro,
solnascença de amor o tempo inteiro
é um safrejar de cafuné

o meu amor é nuvem que se derrama no meio da plantação
o meu amor é invernia pintando de verde o meu sertão

POR 43 ANOS INÉDITA, JOIA DA MPB É RESGATADA


'Os Arcos - Paixão e morte', suíte de João Bosco e Aldir Blanc, era ousada para os padrões de 1973 


Aldir Blanc e João Bosco dedicaram ousada parceria à Lapa carioca (foto: Acervo/2004)


Um tesouro da MPB foi encontrado: Os Arcos – Paixão e morte, a suíte de João Bosco e Aldir Blanc que ficou 43 anos inédita. Gravada por João para seu disco de estreia, foi sumariamente arquivada, talvez pela duração (nove minutos equivaliam a três faixas de um LP), mas muito provavelmente pela incompatibilidade entre sua ousadia formal e a insensibilidade dos executivos da RCA Victor.

A composição era mesmo ousada para os padrões de 1973: um longo poema de versos livres escrito por Aldir para o parceiro acrescentar melodia. O resultado é a dramatização da Lapa numa época em que o bairro boêmio carioca havia perdido sua magia. Estava, numa palavra, morto – e como tal é retratado.

“Só dois loucos de primeira viagem podiam se atrever a uma obra como aquela”, diz Aldir. João a vê como atestado “de que a parceria estava destinada a dar certo” – por causa da suíte, não apesar dela. A ideia de uma obra sobre os Arcos, simbólica divisória entre dois lados da Lapa (segundo Aldir, “entre o acabar para sempre e o continuar”), foi de Cláudio Tolomei, parceiro da dupla.

Pronto o poema, Aldir enviou-o por carta para Ouro Preto, onde o mineiro João Bosco estudava engenharia. “Não conhecia a Lapa, ou melhor, não conhecia o Rio. Tudo que sabia vinha das histórias que meu pai me contava ou de coisas que li. Mas a imaginação é perfeita para se construir o que não se conhece”, explica João. O clima é de uma Lapa que vivia seu momento fúnebre, lembra o compositor, observando que os sinos usados num dos movimentos lembram os enterros em Minas.


POR CARTA

João Bosco e Aldir Blanc se conheceram em 1971, apresentados pelo amigo Pedro Lourenço. João estudava em Ouro Preto, Aldir morava no Rio de Janeiro. Trabalhavam “por carta”. Em 1972, João se mudou para a capital fluminense. Sua primeira gravação, lado B de um disco de bolso do Pasquim (no lado A, Tom Jobim lançava Águas de março), já tinha letra de Aldir: Agnus sei. Em 1973, surgia a chance de um LP pela RCA Victor, com produção de Rildo Hora e orquestrações de Luizinho Eça.

Disco gravado, incluindo a suíte, veio o veto. Por decisão da gravadora, metade dele, seis faixas, teria de ser refeita, agora com arranjos de Rogério Duprat, a contragosto dos artistas. Mesmo assim, foi a partir daquele álbum, chamado João Bosco, que a dupla passou a ter composições gravadas por Elis Regina e outros.

A suíte volta à cena graças à cantora Mariana Baltar, que decidiu dedicar um disco só a letras inéditas de Aldir. Rildo Hora pôs à disposição dela e dos músicos Jayme Vignoli e Josimar Carneiro velhas fitas de rolo. Ali a suíte foi encontrada. Por ora, o acesso a Os Arcos... só é possível pela internet (radiobatuta.com.br), mas Mariana Baltar está decidida a gravá-la.

Fonte: Redação EM Cultura

O TEATRO MÁGICO LANÇA CLIPE DE 'TUDO QUE FAÇO PRA SER'; ASSISTA

Fernando Anitelli aparece no vídeo desconstruindo a imagem com que ele sempre aparece nos shows do grupo



O Teatro Mágico lança clipe para música 'Tudo que eu faço pra ser'. (foto: Reprodução/YouTube)


A banda O Teatro Mágico lançou nessa segunda-feira, 5, seu novo clipe. O vídeo da música Tudo que faço pra ser está disponível no Youtube e faz parte do álbum Allehop. Já são mais de 17 mil visualizações.

A produção mostra o vocalista do grupo, Fernando Anitelli, retirando a maquiagem característica com que ele se apresenta nos shows. Isso reflete a ideia do que a letra da música aborda, um reencontro consigo mesmo, de diferentes formas, não apenas numa única imagem. "Quero conhecer todos os outros de mim [...] experimentar antes de querer [...]", são alguns dos versos da canção.

O Teatro Mágico é conhecido por suas apresentações performáticas e por suas canções com letras que incitam a reflexão e são quase sempre recheadas de poesia. O grupo já lançou seis álbuns, o primeiro em 2003, Entrada para Raros, e o mais recente Allehop, de 2016. 




Fonte: Diário de Pernambuco


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*



Canção: Cebola cortada

Composição: Petrúcio Maia - Clodo Ferreira

Intérprete - Petrúcio Maia

Ano - 1980

Álbum - Petrúcio Maia - Melhor que Mato Verde




* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

EM NOVO DVD, A BANDA PEQUI CONVIDA JOÃO BOSCO E NELSON FARIA

Em seu segundo DVD, o bem sucedido projeto de extensão e cultura da Escola de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) busca suplantar as adversidades com muito trabalho, talento e parceiros pra lá de especiais.

Por Bruno Negromonte


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Neste nefasto e degradante cenário musical que a mídia insiste em nos vender diariamente através dos mais diversos meios, há projetos que não podem deixar de ser propagados e enaltecidos sempre que possível. Como é de praxe, o Musicaria Brasil busca insensatamente confirmar que o pulso firmemente ainda pulsa nos mais recônditos lugares existentes em nosso país através das mais obstinadas figuras que dedicam tempo, talento e perseverança afim de alcançar esse propósito. São nomes que muitas vezes dedicam uma vida inteira em busca de oferecer aquilo que tem de melhor em seu ofício. Uma arte genuína, carregada de emoção e sentimento, que traz como estampa maior a verdade naquilo que faz. Esse tipo de contexto acaba por propiciar situações onde a música de qualidade não esmorece. São anônimos e incansáveis nomes que não vivem em busca do conhecimento dos grandes meios, pois se dão por satisfeito em apenas, de modo perseverante, executar aquilo que acreditam. Uma verdade muitas vezes herdada através de gerações por conta das tradições da cultura popular presentes nos mais inóspitos rincões existente em nosso país, o que acaba por nos fazer acreditar na teoria de que são esses aguerridos nomes, que vivem em defesa do que acreditam, que servem como força-motriz para a produção daquilo que resta (ou que ainda podemos chamar) por música de qualidade existente Brasil. Advindos dos mais distintos contextos existente do norte ao sul do país, faz-se necessário e fundamental a divulgação para além do trivial, pois levando-se em consideração não apenas a diversidade cultural, mas também a extensão territorial do nosso país é de se imaginar que o grande motor para aquilo que temos por cultura de qualidade vem da expressividade de contextos como o maracatu, as cavalhada, as congadas, da folia de Reis, marujadas e tantos outras. É como nos deixou registrado o folclorista, professor, historiador e jornalista Câmara Cascudo"Cultura popular é a que vivemos. É a cultura tradicional e milenar que nós aprendemos na convivência doméstica. A outra é a que estudamos nas escolas, na universidade e nas culturas convencionais pragmáticas da vida (...)."



Fugindo das regras mercadológicas tão em voga na cultura musical brasileira atual, e buscando abarcar as teorias do folclorista potiguar antes citado, existem inúmeros contextos em nosso cenário, e no caso da música, a coisa não se faz diferente como podemos observar a partir dos mais distintos exemplos, como é o caso dessa turma advinda lá do centro-oeste do país, e que traz já em seu nome uma forte identidade com a região, pois foi batizada a partir de uma fruta nativa encontrada no bioma existente naquela paisagens. Surgido a partir de um projeto de extensão e cultura da Escola de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG), Pequi vem ao longo de quase duas décadas de existência buscando não apenas propagar a boa música brasileira a partir da releitura de grandes compositores, mas também buscando fazer a sua parte para o bom cenário de nossa cultura através de canções próprias e arranjos imbuídos de originalidade ao longo desse tempo de existência como vem sendo possível atestar a partir de registros como o álbum "Banda Pequi, Leila Pinheiro e Nelson Faria" e o DVD homônimo ao nome da banda lançado em 2006Agora, uma década depois, a Pequi volta ao mercado audiovisual com o DVD João Bosco, Banda Pequi e Nelson Fariaprojeto que reitera a qualidade dos músicos envolvidos e o compromisso do imprescindível maestro Jarbas Cavendish (regência, coordenação e direção musical) em prezar por características que buscam aliar uma didática musicalmente eficiente em favor da qualidade. Talvez seja por essa perseverança que o som da Pequi tem ecoado de modo cada vez mais longínquo, propagando a boa música instrumental produzida ali, em uma região aparentemente inóspita à boa música popular brasileira, Brasil a fora.

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Com um repertório que busca enfatizar a participação do cantor e compositor mineiro João Bosco a partir de composições como "Linha de passe(João Bosco - Aldir Blanc - Paulo Emílio), "Quando o amor acontece(parceria de Bosco com o carioca Abel Silva), "Jade" (única canção no projeto assinada apenas por Bosco), "Toma lá da cá", "Corsário", "Bala com bala e "Incompatibilidade de gênios" (toda de autoria da dupla Aldir Blanc e João Bosco. O disco ainda apresenta "Girando em torno do sol", canção de autoria de Jarbas Cavendish com os arranjos sob o cuidado de Bruno Rejan entre outras de relevantes compositores que ao longo do século XX escreveram em definitivo os seus nomes na história da música popular brasileira como é o caso da dupla Aloysio de Oliveira Tom Jobim que assinam o clássico "Inútil Paisagem", outra canção da lavra de Tom, só que desta vez em parceria com Vinícius de Moraes é "O morro não tem vez" e para findar a presença dos grandes compositores brasileiros "Manhã de carnaval" assinada por Luiz Bonfá e Antônio MariaTodas essas faixas vêm sob uma roupagem que preza a força e o talento da big band, assinadas por "estilistas" de peso como é o caso do arranjador e instrumentista Nelson Faria e do já citado  Bruno Rejan.

Com a captação de imagens feito pela TV Ufg sob direção de Michael Vallin o DVD ainda conta com outros nomes que acreditam na redenção da boa música popular brasileira a partir de trabalhos como este. É o caso de Antonio CardosoBruno PereiraNivaldo JuniorManassés Aragão (trompetes-flugels); Diego Amaral, Fábio Oliveira e Noel Carvalho (percussões); Jader Steter (bateria); Bruno Rejan (baixo elétrico-acústico); Luiz Fagner, André Luiz, Marcos Paulo, Pedro Henrique (trombone) e os saxofones e flautas executados por Anastácio Alves, Antônio Alves "Foka", Everton Loredo, Juarez Portilho e Marcos Lincoln, nomes que investiram sonhos, suor e seus respectivos talentos não apenas na realização de um projeto, mas na concretização de algo maior, que por circunstâncias diversas acabou ao  longo de uma década e meia saindo do plano da mera pretensão para uma realidade onde se faz possível não apenas atestar que a proposta inicial vem sendo brilhantemente cumprida pautada em aspectos como talento e alegria por parte de todos os envolvidos. A Pequi trata-se sem dúvida de uma realização que ganhou, de modo natural, uma força maior que a proposta de atuar como centro de formação específica na música popular brasileira, com aplicação predominantemente na prática instrumental. Entre os cascalhos culturais existentes na atual conjuntura brasileira, com amor e perseverança Jarbas Cavendish vem conseguindo escreve de modo ímpar a sua história não apenas no contexto musical do centro-oeste (uma região aparentemente inóspita para o tipo de música a qual se aventurou difundir) ao encontrar pequenas e talentosas pepitas de ouro sob a alcunha de alunos. Sorte nossa!



Maiores informações

Site Oficial - https://bandapequi.emac.ufg.br/

Facebook (Página) - https://www.facebook.com/BANDA-PEQUI-1378508709042934/

NELSON MOTTA SERÁ HOMENAGEADO NO GRAMMY LATINO 2016

Motta receberá o Prêmio da Junta Diretiva em novembro, durante a cerimônia do 17º Grammy Latino


Nelson Motta será receberá o Prêmio da Junta Diretiva. (foto: Grammy Latino/Divulgação)


A trajetória artística e musical de Nelson Motta será homenageada na próxima edição do Grammy Latino, que acontecerá no dia 16 de novembro.

Motta receberá o Prêmio da Junta Diretiva por suas contribuições à música latina e por ter criado um legado inestimável tanto para o Brasil quanto para a América Latina. 

Jornalista, compositor, escritor, crítico musical, produtor e roteirista, Nelson Motta participa da cena musical desde os tempos da bossa nova. Ao lado de Edu Lobo e Dori Caymmi foi vencedor do Festival Internacional da Canção com a música Saveiros, interpretada por Nana Caymmi. 

Também conhecido por impulsionar o rock brasileiro, ele dirigiu e produziu cantoras como Elis Regina, Marisa Monte e Gal Costa. Em suas parcerias de composição, nomes como Lulu Santos, Rita Lee, Ed Motta, Marcus Valle e Erasmo Carlos. 

Além de Nelson Motta, o prêmio também foi concedido a Carlos Mejía Godoy, da Nicarágua, e ao dominicado Rafael Solano Sánchez. Mejía é conhecido como a voz do povo de seu país por ter usado a rádio contra a opressão política, além de ter composto vários clássicos. Sánchez é autor de mais de 100 obras e um renomado produtor de TV. 

O presidente da Academia Latina da Gravação, Gabriel Abaroa Jr, reconhece a diversidade dos homenageados deste ano. ''Cada trabalho individual dos homenageados na indústria latina provou ser indelével e sem dúvida continuará a inspirar nossas culturas e comunidades'', declarou.


Fonte: Estado de Minas 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

VÔTE... ESPIA SÓ: MEU POETA DE SEMPRE

Por Paulo Carvalho


Affonso Romano de Sant’Anna


Este poema foi escrito há bastante tempo e dedicado a um dos grandes juristas brasileiros, o Professor Raymundo Faoro, defensor intransigente da Constituição Brasileira. No entanto me parece muito atual, diante das condições do momento pelo qual passamos.

Que país é este? 
Para Raymundo Faoro
Affonso Romano de Sant’Anna

¿Puedo decir que nos han traicionado? No. ¿Que todos fueram buenos? Tampoco. Pero alli está una buena voluntad, sin duda y sobretodo, el ser así. – César Vallejo

1.
Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.

Uma coisa é um país,
outra um regimento.

Uma coisa é um país,
outra o confinamento.

Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno “Avante”
– e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um “berço esplêndido” para um “futuro radioso”
e éramos maiores em tudo
– discursando rios e pretensão.

Uma coisa é um país,
outra um fingimento.

Uma coisa é um país,
outra um monumento.

Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.

Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça
em busca de especiosa raiz? ou deveria
parar de ler jornais
e ler anais
como anal
animal
hiena patética
na merda nacional?
Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo
comendo o que as traças descomem
procurando
o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa visão do paraíso
que nos impeliu a errar aqui?

Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos
nacionais, como qualquer santo barroco
a rebuscar
no mofo dos papiros, no bolor
das pias batismais, no bodum das vestes reais
a ver o que se salvou com o tempo
e ao mesmo tempo
– nos trai

2.
Há 500 anos caçamos índios e operários,
Há 500 anos queimamos árvores e hereges,
Há 500 anos estupramos livros e mulheres,
Há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é que é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode.

Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos,
quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama
ou quem tem padrinho vivo
não morre nunca pagão.

Há 500 anos propalamos:
este é o país do futuro,
antes tarde do que nunca,
mais vale quem Deus ajuda
e a Europa ainda se curva.

Há 500 anos
somos raposas verdes
colhendo uvas com os olhos,
semeamos promessa e vento
com tempestades na boca,

sonhamos a paz da Suécia
com suíças militares,

vendemos siris na estrada
e papagaios em Haia,

senzalamos casas-grandes
e sobradamos mocambos,

bebemos cachaça e brahma
joaquim silvério e derrama,

a polícia nos dispersa
e o futebol nos conclama,

cantamos salve-rainhas
e salve-se quem puder,

pois Jesus Cristo nos mata
num carnaval de mulatas.

Este é um país de síndicos em geral,
este é um país de cínicos em geral,
este é um país de civis e generais.

Este é o país do descontínuo
onde nada congemina,
e somos índios perdidos
na eletrônica oficina.

Nada nada congemina:
a mão leve do político
com nossa dura rotina,

o salário que nos come
e nossa sede canina,

a esperança que emparedam
e a nossa fé em ruína,

nada nada congemina:
a placidez desses santos
e nossa dor peregrina,

e nesse mundo às avessas
– a cor da noite é obsclara
e a claridez vespertina.

3.
Sei que há outras pátrias. Mas
mato o touro nesta Espanha,
planto o lodo neste Nilo,
caço o almoço nesta Zâmbia,
me batizo neste Ganges,
vivo eterno em meu Nepal.

Esta é a rua em que brinquei,
a bola de meia que chutei,
a cabra-cega que encontrei,
o passa-anel que repassei,
a carniça que pulei.

Este é o país que pude
que me deram
e ao que me dei,
e é possível que por ele, imerecido,
– ainda morrerei.

4.
Minha geração se fez de terços e rosários:
– um terço se exilou
– um terço se fuzilou
– um terço desesperou

e nessa missa enganosa
– houve sangue e desamor. Por isto,
canto-o-chão mais áspero e cato-me
ao nível da emoção.

Caí de quatro
animal

sem compaixão.

Uma coisa é um país,
outra uma cicatriz.

Uma coisa é um país,
outra a abatida cerviz.

Uma coisa é um país,
outra esses duros perfis.

Deveria eu catar os que sobraram
os que se arrependeram,
os que sobreviveram em suas tocas
e num seminário de erradios ratos
suplicar:
– expliquem-me a mim
e ao meu país?

Vivo no século vinte, sigo para o vinte e um
ainda preso ao dezenove
como um tonto guarani
e aldeado vacum. Sei que daqui a pouco
não haverá mais país.

País:
loucura de quantos generais a cavalo
escalpelando índios nos murais,
queimando caravelas e livros
– nas fogueiras e cais,
homens gordos melosos sorrisos comensais
politicando subúrbios e arando votos
e benesses nos palanques oficiais.

Leio, releio os exegetas.
Quanto mais leio, descreio. Insisto?
Deve ser um mal do século
– se não for um mal de vista.

Já pensei: – é erro meu. Não nasci no tempo certo.
Em vez de um poeta crente
sou um profeta ateu.
Em vez da epopéia nobre,
os de meu tempo me legam
como tema
– a farsa
e o amargo riso plebeu.

5.
Mas sigo o meu trilho. Falo o que sinto
e sinto muito o que falo
– pois morro sempre que calo.
Minha geração se fez de lições mal-aprendidas
– e classes despreparadas
Olhávamos ávidos o calendário. Éramos jovens.
Tínhamos a “história” ao nosso lado. Muitos
maduravam um rubro outubro
outros iam ardendo um torpe
agosto.
Mas nem sempre ao verde abril
se segue a flor de maio.
Às vezes se segue o fosso
– e o roer do magro osso.
E o que era revolução outrora
agora passa à convulsão inglória.
E enquanto ardíamos a derrota como escória
e os vencedores nos palácios espocavam seus champanhas sobre a aurora
o reprovado aluno aprendia
com quantos paus se faz a derrisória estória.
Convertidos em alvo e presa da real caçada
abriu-se embandeirado
um festival de caça aos pombos
– enquanto raiava sangüínea e fresca a madrugada.

Os mais afoitos e desesperados
em vez de regressarem como eu
sobre os covardes passos,
e em vez de abrirem suas tendas para a fome dos desertos,
seguiram no horizonte uma miragem
e logo da luta
passaram
ao luto.

Vi-os lubrificando suas armas
e os vi tombados pelas ruas e grutas.
Vi-os arrebatando louros e mulheres
e serem sepultados às ocultas.
Vi-os pisando o palco da tropical tragédia
e por mais que os advertisse do inevitável final
não pude lhes poupar o sangue e o ritual.

Hoje
os que sobraram vivem em escuras
e européias alamedas, em subterrâneos
de saudade, aspirando a um chão-de-estrelas,
plangendo um violão com seu violado desejo
a colher flores em suecos cemitérios.

Talvez
todo o país seja apenas um ajuntamento
e o conseqüente aviltamento
– e uma insolvente cicatriz.

Mas este é o que me deram,
e este é o que eu lamento,
e é neste que espero
– livrar-me do meu tormento.

Meu problema, parece, é mesmo de princípio:
– do prazer e da realidade
– que eu pensava
com o tempo resolver
– mas só agrava com a idade.

Há quem se ajuste
engolindo seu fel com mel.
Eu escrevo o desajuste
vomitando no papel.

6.
Mas este é um povo bom
me pedem que repita
como um monge cenobita
enquanto me dão porrada
e me vigiam a escrita.
Sim. Este é um povo bom. Mas isto também diziam
os faraós
enquanto amassavam o barro da carne escrava.
Isso digo toda noite
enquanto me assaltam a casa,
isso digo
aos montes em desalento
enquanto recolho meu sermão ao vento.

Povo. Como cicatrizar nas faces sua imagem perversa e una?
Desconfio muito do povo. O povo, com razão,
– desconfia muito de mim.

Estivemos juntos na praça, na trapaça e na desgraça,
mas ele não me entende
– nem eu posso convertê-lo.
A menos que suba estádios, antenas, montanhas
e com três mentiras eternas
o seduza para além da ordem moral.

Quando cruzamos pelas ruas
não vejo nenhum carinho ou especial predileção nos seus olhos.
Há antes incômoda suspeita. Agarro documentos, embrulhos, família
a prevenir mal-entendidos sangrentos.

Daí vejo as manchetes:
– o poeta que matou o povo
– o povo que só/çobrou ao poeta
– (ou o poeta apesar do povo?)

– Eles não vão te perdoar
– me adverte o exegeta.
Mas como um país não é a soma de rios, leis, nomes de ruas, questionários e geladeiras,
e a cidade do interior não é apenas gás néon, quermesse e fonte luminosa,
uma mulher também não é só capa de revista, bundas e peitos fingindo que é coisa nossa.
Povo
também são os falsários
e não apenas os operários,
povo
também são os sifilíticos
não só atletas e políticos,
povo
são as bichas, putas e artistas
e não só os escoteiros
e heróis de falsas lutas,
são as costureiras e dondocas
e os carcereiros
e os que estão nos eitos e docas.

Assim como uma religião não se faz só de missas na matriz,
mas de mártires e esmolas, muito sangue e cicatriz,
a escravidão
para resgatar os ferros de seus ombros
requer
poetas negros que refaçam seus palmares e quilombos.

Um país não pode ser só a soma
de censuras redondas e quilômetros
quadrados de aventura, e o povo

não é nada novo
– é um ovo
que ora gera e degenera
que pode ser coisa viva
– ou ave torta

depende de quem o põe
– ou quem o gala.

7.
Percebo
que não sou um poeta brasileiro. Sequer
um poeta mineiro. Não há fazendas, morros,
casas velhas, barroquismos nos meus versos.

Embora meu pai viesse de Ouro Preto com bandas de música polícia militar casos de assombração e uma calma milenar,
embora minha mãe fosse imigrando hortaliças protestantes
tecendo filhos nas fábricas e amassando a fé e o pão,
olho Minas com um amor distante,
como se eu, e não minha mulher
– fosse um poeta etíope.

Fácil não era apenas ao tempo das arcádias
entre cupidos e sanfoninhas,
fácil também era ao tempo dos partidos:
– o poeta sabia “história”
vivia em sua “célula”,
o povo era seu hobby e profissão,
o povo era seu cristo e salvação.

O povo, no entanto, é o cão
e o patrão
– o lobo. Ambos são povo.
E o povo sendo ambíguo
é o seu próprio cão e lobo.

Uma coisa é o povo, outra a fome.
Se chamais povo à malta de famintos,
se chamais povo à marcha regular das armas,
se chamais povo aos urros e silvos no esporte popular

então mais amo uma manada de búfalos em Marajó
e diferença já não há
entre as formigas que devastam minha horta
e as hordas de gafanhoto de 1948
– que em carnaval de fome
o próprio povo celebrou.

Povo
não pode ser sempre o coletivo de fome.
Povo
não pode ser um séquito sem nome.
Povo
não pode ser o diminutivo de homem.
O povo, aliás,
deve estar cansado desse nome,
embora seu instinto o leve à agressão
e embora
o aumentativo de fome
possa ser
revolução.


Affonso Romano de Sant’anna

GEOGRAFIA DAS EXPRESSÕES

Um ensaio fotográfico sobre o homem e seus territórios, focando as expressões diversas dos indivíduos no cotidiano e em suas respectivas paisagens. 

Por Fábio Nunes







PENINHA, PERCUSSIONISTA DO BARÃO VERMELHO, MORRE NO RIO AOS 66 ANOS

Músico teve um choque hemorrágico no estômago, diz assessoria.
Ele estava internado no Hospital da Lagoa, no Rio, e morreu nesta segunda.


Peninha, do Barão Vermelho, de óculos escuros, o quarto da esquerda para a direita na foto (Foto: Gabriel Wickbold/Divulgação)


Paulo Humberto Pizziali, conhecido como Peninha, percussionista do Barão Vermelho, morreu nesta segunda-feira (19), no Rio, aos 66 anos. O músico carioca estava internado por causa de hepatite C e uma hérnia no abdômen no Hospital da Lagoa, na Zona Sul do Rio, e morreu por conta de um choque hemorrágico no estômago, na tarde desta segunda. Peninha deixa quatro filhos.
saiba mais

Ana Tereza Lima Soler, ex-mulher de Peninha, lamentou a morte do músico em sua página no Facebook:

"Queridos amigos e familiares, é com pesar que venho comunicar que o pai dos meus filhos, Paulo Humberto Pizziali, mais conhecido como Peninha, faleceu agora no hospital da Lagoa. Peço aos meus queridos amigos que orem por ele, cada um na sua fé. Os filhos dele estão muito abalados. Peço que orem por eles também."


Peninha no Barão Vermelho

Peninha começou a tocar com o Barão no disco "Declare Guerra", do Barão Vermelho, de 1986, primeiro álbum do grupo sem Cazuza. Antes, ele havia tocado com músicos como Johnny Alf, Gal Costa, Simone e Sivuca. Depois de gravar o álbum com o Barão, ele foi chamado para se apresentar com a banda em shows e se tornou membro fixo.

"Estamos consternados. Peninha era um um grande amigo, de verdade", disse ao G1 Rodrigo Santos, baixista do Barão Vermelho.

Durante uma das pausas na carreira do Barão Vermelho, em 2001, Peninha passou a fazer shows instrumentais. Na última grande turnê da banda, entre 2012 e 2013, Peninha participou dos shows. Depois destas apresentações, o Barão interrompeu novamente as atividades.


Fonte: G1 SP

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