PROFÍCUAS PARCERIAS

Em comemoração aos nove anos de existência, nosso espaço apresentará colunas diárias com distintos e gabaritados colaboradores. De domingo a domingo sempre um novo tema para deleite dos leitores do nosso espaço.

INTUITY BORA BORA JANGA

Siga a sua intuição e conheça aquela que vem se tornando a marca líder de calçados no segmento surfwear nas regiões tropicais do Brasil. Fones: (81) 99886 1544 / (81) 98690 1099.

ZÉ RENATO - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Com 40 anos de carreira, o músico capixaba faz uma retrospectiva biográfica de sua trajetória como instrumentista, compositor e intérpretes em diverso dos projetos nos quais participou.

SENHORITA XODÓ

Alimentos saudáveis, de qualidade e feitos com amor! Culinária Brasileira, Gourmet, Pizza, Vegana e Vegetariana. Contato: (81) 99924-5410.

QUEM FOI INALDO VILARIN?

Autor de canções como “Eu e o meu coração” (gravada por nomes como João Gilberto e Maysa), Inaldo Vilarin é mais um na triste estatística de um país sem memória

HANGOUT MUSICARIA BRASIL

Em novo canal no Youtube, Bruno Negromonte apresenta em informais conversas os mais distintos temas musicais.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

QUAL É O CAMINHO DO AUTORAL NAS PLATAFORMAS DIGITAIS?

Por David Dines



Muitos compositores não sabem, mas o pagamento autoral passa por caminhos bem diferentes nos meios públicos e nas plataformas digitais — e o ECAD não é o único responsável por repassar as somas devidas aos criadores nos serviços de streaming. Saiba como garantir que você está recebendo a totalidade a que tem direito sobre as suas composições:

Todos os meios oficiais de execução pública devem fazer pagamentos ao ECAD sobre as músicas tocadas. Essa categoria abrange desde casas de shows, canais de TV e estações de rádio a academias, lojas e consultórios médicos. O órgão calcula o que deve ser arrecadado a partir do número de pessoas potencialmente expostas àquela obra ou gravação. Para espaços físicos, a área e a capacidade do lugar são levados em conta e, nos casos de eventos fechados e casas de shows, o cálculo também pode ser feito sobre a bilheteria.

Se uma música está sendo executada ao vivo, o ECAD recolhe apenas o pagamento devido a autores e, caso haja, editoras. No entanto, se a trilha do ambiente for a gravação original, o órgão também rateia o que for arrecadado com o produtor fonográfico (responsável por emitir o código ISRC), o intérprete e os músicos acompanhantes, cujos direitos são chamados “conexos”. A entidade geralmente utiliza para esses fins um método de amostragem, no qual levanta-se uma relação de músicas executadas em determinado período e faz-se o pagamento aos responsáveis por aquelas obras e fonogramas. Qualquer canção que não esteja nessa lista não tem sua execução remunerada.

Para receber do ECAD, os criadores e músicos precisam estar vinculados a uma das sete associações arrecadadoras no Brasil, como compositores, intérpretes, músicos acompanhantes e/ou produtores fonográficos.

Nas plataformas digitais, o processo é outro. Apesar de muitos estabelecimentos comerciais utilizarem serviços de streaming para sonorização do ambiente, essas lojas digitais não são, a rigor, espaços de execução pública. Isso porque o próprio ouvinte é quem define o que pode escutar a qualquer momento, além de o uso se dar por meio de uma conta pessoal. Por esse motivo, as plataformas fazem esse pagamento autoral de outra forma: 10 a 15% do valor de cada play é destinado à editora ou autor antes mesmo dos repasses ao selo/distribuidora, que intermedia o que diz respeito à gravação. Por não tratar-se essencialmente de execução pública, não há repasse de direitos conexos.

O que muda é quem administra esse pagamento autoral. Esse valor geralmente não passa pelo selo/distribuidora, produtor fonográfico ou mesmo pelo ECAD. Grande parte dos serviços de streaming encaminha esses valores à UBEM (União Brasileira das Editoras de Música), entidade à qual estão filiadas todas as principais editoras e catálogos mais rentáveis do mercado brasileiro. O problema é que os autores diretos, que administram seus próprios catálogos, não podem vincular-se a essa instituição, o que cria um fundo retido ao qual esses compositores não têm acesso.

O que a Tratore faz para facilitar esse processo para os compositores diretos? Por meio do acordo DigiTratore, podemos reivindicar esses valores em nome dos autores e repassar quantias que não ficariam acessíveis de outra forma. Também temos um acordo direto de autoral com o YouTube que possibilita uma arrecadação facilitada para o artista. O pagamento referente a execução pública continua chegando ao compositor diretamente por sua associação.

Com os últimos acontecimentos na justiça brasileira na parte de direitos autorais, o ECAD passou a ser contemplado por algumas plataformas digitais, como o Spotify. Mas, mesmo assim, a entidade não é responsável pelo recolhimento da totalidade dos direitos de compositor no streaming — a UBEM continua recebendo dessas mesmas plataformas. Quaisquer cálculos sobre direitos autorais nesse meio, sejam específicos ou levando em conta toda a produção fonográfica do país, devem considerar o que é arrecadado pela UBEM. Outra questão possível de discussão nessa seara é como a entrada do ECAD nesse fluxo também pode impactar negativamente o compositor, uma vez que o método de cálculo e pagamento do órgão é, por vezes, obscuro e impreciso.

Os autores diretos que têm seus trabalhos distribuídos nas plataformas digitais precisam estar cientes dessa dinâmica do mercado da música, para que busquem seus direitos e sejam remunerados da melhor forma possível.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

PAUTA MUSICAL: NICOLAS KRASSIK E A INTEGRAÇÃO COM A MÚSICA BRASILEIRA

Por Laura Macedo




Nicolas Krassik, nascido na periferia de Paris, violinista de formação clássica jazzistica. Apaixonado pela música brasileira aterrizou em terras brasileiras em 2001 e encontrou no samba, choro, forró e pífano, a inspiração para testar novos sons e criar novas músicas. No Palco Compacto Petrobras foi possível sentir todas as suas influências com uma música vibrante. Essa energia você sente assistindo a apresentação esfuziante de Nicolas Krassik no Palco Compacto Petrobras.

MINHAS DUAS ESTRELAS (PERY RIBEIRO E ANA DUARTE)*




29 - Rádio Nacional

Nos anos de 1940-50, não eram as gravador-as o grande suporte dos artistas, mas sim as rádios. Elas davam trabalho com a intensa programação ao vivo em seus auditórios. Contratavam os melhores com exclusividade. Ter um contrato desses era motivo do maior orgulho entre os artistas. E a certeza do sustento assegurado. Em 1942, o Trio de Ouro assinou o primeiro contrato com a cobiçada Rádio Nacional e começou a consolidar o prestígio junto ao público. As apresentações eram disputadíssimas pelo auditório. Numa época em que os artistas se apresentavam parados em cena, meu pai, sempre inovador, dirigia as apresentações do Trio de Ouro de forma quase teatral, com marcações rigidamente obedecidas por Dalva e Nilo. Muito caprichoso com os figurinos, Herivelto fazia dos números do Trio um verdadeiro show. Ao retornar da Venezuela, meu pai começou a direcionar sua vida sem Dalva. Quando foi participar ao diretor da Nacional, Vítor Costa, o fim de seu casamento e a saída de Dalva de Oliveira do Trio de Ouro, além de pedir um tempo para providenciar outra cantora, meu pai viu se concretizar o que tanto temia (e tanto adiara!): “Nem pensar, Herivelto. Nosso contrato é com o Trio. Não existe Trio de Ouro sem Dalva de Oliveira! E, sem Dalva, não tem contrato ”. Numa tentativa frustrada, Vítor Costa ainda procurou convencer Herivelto de continuar na rádio as apresentações do Trio com Dalva, em cumprimento ao contrato. Em vão, meu pai não era homem para se convencer de nada. E já havia tomado uma atitude. Imagino como ficou ferido em seus brios para agir como agiu, diante da tão poderosa Nacional. “Nada disso! O Trio de Ouro é criação minha. Faço com ele o que bem entender. Fui eu quem inventei a Dalva. Invento outra. Sempre trabalhei, com Dalva ou sem Dalva. Podem ficar com quem quiserem .” E saiu batendo a porta. Pagou um preço caro por isso. Obviamente, a direção da rádio fez questão de manter Dalva em seu cast, dando-lhe um contrato assim que retornou ao Rio, vinda de Belém. O caminho dos meus pais começava a se dividir. Na Rádio Nacional, o elenco era fantástico. O cast contratado compunha-se de 98 artistas. A rádio mantinha contratadas — prestem bem atenção! — cinco orquestras (sob o comando dos maestros Radamés Gnattali, Lírio Panicali, Leo Peracchi, Ercole Vareto e Chiquinho (Francisco Duarte), ou seja, um quinteto formado por feras) e um conjunto regional. Vivia-se uma época de ouro na história musical do país. Não me lembro de ir muito à Rádio Nacional com meu pai, mas me recordo com clareza das idas frequentes com minha mãe, já cantando sem o Trio. Marlene, Francisco Alves, Ivon Curi, Emilinha, Cauby Peixoto, Heleninha Costa, Luís Gonzaga, Gilberto Milfont, Ellen de Lima, Zezé Gonzaga, José Garcia, Gregório Barros, Carmélia Alves, Orlando Silva, Os Cariocas, Quatro Ases e Um Coringa, Trio Irakitan, Trio Nagô, Francisco Carlos, Blecaute, Risadinha, Jackson do Pandeiro, Trigêmeos Vocalistas, Neuza Maria, Linda Batista, Dircinha Batista, Maestro Chiquinho, Orlando Dias, Adelaide Chiozzo, Gilberto Alves, Deo, Carlos Gal-hardo, Ester de Abreu… peço perdão por não me lembrar de muitos outros. Todos fizeram parte da minha vida. A Rádio Nacional nos anos 50 era um grande celeiro de craques da música e tive o privilégio de assistir de perto a esse momento especial. Acostumei-me a vê-los, ao acompanhar minha mãe aos sábados, no programa César de Alencar, aos domingos, no programa de Paulo Gracindo, e nas quintas, no programa de Manoel Barcelos. Nessa convivência, com intuição de criança, sentia quem era sincero com minha mãe e quem era falso diante do que passávamos. Mas, de maneira geral, to-dos a apoiavam e lhe dedicavam um carinho especial. A imagem do auditório da Rádio Nacional é marcante para mim . O clima era de festa! Nos corredores, todos se falavam e se confraternizavam, contando as últimas novidades. Alguns se estranhavam . Não deixava de ser uma “fogueira de vaidades”. O burburinho do público no auditório para seiscentas pessoas era contagiante. Aquele espaço podia “fazer” um artista ou derrubá-lo. Foi nesse auditório frenético que nasceu a expressão “macaco de auditório”, que considero de muito mau gosto. Minha mãe também deplorava essa expressão. Nessa convivência com os maiores ícones da Nacional, as minhas lembranças mais fortes, fora meus pais, são de dois artistas não tão badalados na época, mas com tamanho talento que se perpetuaram através desses cinquenta anos muito mais que alguns astros daquela época. Falo de um rapazinho tímido, franzino, humilde até, sempre pelos cantos, tocando um violão maravilhoso: era o Garoto. Sua música me impressionava. Ficava extasiado escutando-o dedilhar o instrumento. Um dia, vi-o sozinho num dos estúdios Ismael Neto. Curioso como toda criança, me aproximei e fiquei ouvindo-o tocar uns acordes lindos. Repetidamente, ele tocava a mesma canção. Estava começando a compor uma música muito suave. Nascia “Valsa de uma cidade”. Mais tarde, Ismael receberia a ajuda de Antônio Maria na criação da letra. Quando chegava com minha mãe à porta da Rádio Nacional, a fila dos fãs já estava enorme, virava o quarteirão. Ela levava mais de vinte minutos da porta do carro, um lindo Jaguar prateado, até chegar ao elevador. Era uma loucura o assédio, todos gritando: “Dalva! Dalva! ”. Todos queriam tocá-la, beijá-la. Minha mãe era muito paciente e gentil. Tinha grande amor por seus fãs. Permitia que a tocassem, mas, muito vaidosa, pedia para não amassar suas roupas, pois ia entrar em cena. Eram fãs de todo o Brasil, oferecendo ad-miração pelo seu canto especial e, mais ainda, total solidariedade à mulher que se separara do marido, rompendo de forma tão corajosa um relacionamento traumático. Naquele início dos anos 50, minha mãe estava provocando, sem ter consciência disso, um dos maiores fenômenos de identificação de massa já observados em nosso país. Sub-missas aos maridos, em casamentos sem a menor qualidade e até violentos, vivendo sob o jugo do preconceito da sociedade, que não lhes permitia romper com nada disso, essas mulheres projetavam em Dalva seus problemas de vida e invejavam -lhe o grito de liberdade. Mesmo no auge da disputa dos fã-clubes de Marlene e Emilinha Borba, minha mãe era querida por todos. Sem nenhum pudor, posso afirmar que Dalva de Oliveira representava uma unanimidade no cenário artístico brasileiro. Hoje, quando retorno à Rádio Nacional, sinto o coração apertado. Entristeço-me com o aspecto decadente de suas instalações ao recordar a decoração do 19o andar, a sala suntuosa do presidente Vítor Costa, com seu tapete fofo, as poltronas de couro e lambris de madeira de lei. Outra sala chique era a do diretor de programação, Floriano Faissal, no 21o andar, onde os artistas mais importantes eram recebidos. Minha mãe tinha sempre as portas abertas nessas salas e era recebida com deferência. Como crianças, Bily e eu aproveitávamos bem toda aquela mordomia: era lanchinho, colinho de gente famosa, muitos paparicos. Sempre digo: nenhuma criança passou por colos tão variados quanto a gente. Por onde ando neste país, escuto: “Conheci tua mãe. Você era pequenino e te peguei no colo”. Se o papo for com artistas da época, en-tão, eles ainda se recordam de uma historinha que entrou para o folclore da família. Minha mãe, ao fazer os exercícios de aqueci-mento da voz (os “vocalises”), desenvolveu o hábito de treinar assim: “PERÍ-Í-Í. PERÍ-Í-Í”. Todos riam quando a escutavam . E eu, se estivesse longe, voltava correndo para perto dela, me sentindo o máximo! Edith, fiel escudeira de minha mãe, conta que, anos mais tarde, num momento profissional ruim, com pouco trabalho e tendo de pagar uma parcela intermediária da casa de Jacarepaguá, Dalva recorreu ao diretor da Nacional, Vítor Costa, pedindo um empréstimo. Com especial carinho por minha mãe, Vítor disse que a quantia estava à disposição. Edith foi encarregada de buscar o cheque. Foi muito bem recebida e ainda escutou: “Diga à nossa eterna Rainha do Rádio para não se preocupar em devolver. É um presente de coração”.




* A presente obra é disponibilizada por nossa equipe, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo.

ROBERTO CARLOS JÁ LANÇOU 24 DISCOS QUE TEM PRATICAMENTE A MESMA CAPA - PARTE 02

Por Carlos Viegas



A opção por capas tão semelhantes não acompanha Roberto Carlos desde os seus primeiros passos dentro da indústria fonográfica. O primeiro álbum do cantor, que trazia o hit “Splish Splash” (1963), chegou às prateleiras com uma diagramação diferente e o disco seguinte, É Proibido Fumar (1964), trazia o cantor com um cabelo curto e uma rara camisa vermelha. Nesta primeira fase, a grande referência para a confecção das capas de Roberto eram os Beatles, que também norteavam fortemente o som do artista brasileiro. A referência aos Beatles está no corte de cabelo adotado pelo Rei (a la McCartney), nas roupas sociais que conversam com a fase iê-iê-iê do grupo inglês e na descarada capa de 1966 que nada mais é do que uma releitura da imagem trazida na capa do disco With The Beatles, que ficou internacionalmente conhecido anos antes.


Ainda na onda de referência aos Beatles, o disco de 1967 do Rei traz uma imagem do filme “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”, película lançada na época por Roberto copiando a onda de filmes musicais popularizada pelos Beatles desde o filme “Help!” (1965).

Em uma segunda fase, já saído da Jovem Guarda e buscando por uma identidade própria, o cantor experimentou influências musicais diferentes e isso esteve refletido na capa de seus álbuns. O disco mais pesado e soul de 1970 tem uma capa que faz jus ao seu conteúdo, enquanto o melancólico álbum de 1972 traz uma foto monotônica do cantor quase chorando. O experimental disco de 1973 apresenta uma capa mais artística do que de costume e o trabalho cool de 1975 (mais jazz/MPB) traz uma capa em tom hipster onde o cantor aparece fumando um cachimbo e o seu nome aparece rabiscado em formato de autógrafo. Até aqui, poucos padrões e uma sintonia observável entre capa e conteúdo.


Na segunda metade da década de 70, o cantor desprendeu-se um pouco da sua veia gospel e isso esteve refletido na capa cafajeste de 1976 (no disco que traz a clássica “Ilegal, Imoral ou Engorda”). A capa de 1977 conversa com a febre discovivida na época, embora o conteúdo lembre bastante o disco anterior, e a pose gótica-suave de Roberto no álbum de 1981 é um dos últimos sinais de variação nas capas do cantor. Depois disso, somente em 1994 uma capa sua traria algo de diferente.

A variabilidade das capas dos anos 70 reflete a busca de Roberto Carlos por um padrão que “funcionasse”. Enquanto testava, descobriu em 1974 a fórmula visual que perduraria. A roupa azul, a pose e o cabelo padrão apareceriam ali pela primeira vez.




O ano de 1974 pode ser considerado o ano em que Roberto Carlos começou a se tornar o que hoje conhecemos, e isso não toma como base só a capa deste disco. O ano marcou também a ruptura definitiva do cantor com o público jovem e o incluiu na galeria dos cantores adultos românticos que dominariam comercialmente a música brasileira naquele período. Em 1974, o cantor também começava a ser reconhecido como grande compositor, abandonando as saídas fáceis de anos antes e investindo em letras mais sentimentalmente carregadas. Por fim, o ano marcou também a primeira exibição do especial de final de ano de Roberto na Globo, que foi essencial para o aumento de sua popularidade. A fama de Rei data deste período.


Desde que Roberto Carlos se tornou rei

Depois de encontrar a sua praia, Roberto passaria a criar soluções dentro disso, mas nunca mais daria uma grande virada estética, tanto na música quanto no visual. A década de 80, inclusive, seria a fase em que ele menos lançaria clássicos, mas ao mesmo tempo seria a década em que ele mais faria sucesso, se estabelecendo como um cantor das massas, ganhando o Grammy e chegando a ocupar o topo da parada latina da Billboard.

Enquanto a sua fama como cantor se expandia, crescia também o culto à sua imagem, que deixava claro que qualquer álbum do cantor (com mais clássicos ou menos clássicos famosos) faria sucesso, independente de sua qualidade, porque o público consumia Roberto Carlos não só como cantor, mas como ícone popular.

A obra de Roberto, como um todo, alimenta essa busca personalista do fã pela imagem e pela pessoa de Roberto Carlos, algo que se tornou mais explícito nos anos 80 (quando as capas azuis se tornaram mais recorrentes), mas que já perseguia o ícone desde os seus primeiros discos. Uma prova disso são os nomes dados aos álbuns do cantor. Dos 49 discos avaliados nesta pesquisa, 30 se chamam simplesmente Roberto Carlos e apenas um (sim, um único lançamento) não traz uma foto do cantor na capa: o disco de 1971, que substitui a foto por uma pintura com a cara do Rei.

Definitivamente, a repetição nas capas não é acidente ou falta de criatividade, mas um trabalho de construção de imagem muito bem sucedido e que teve como resultado a fixação de Roberto Carlos como um dos rostos mais conhecidos da história brasileira, algo que se refletiu em vendagens, culto e construção de uma base de fãs para os quais o personalismo está acima da estética e muitas vezes acima da própria música.

domingo, 20 de agosto de 2017

HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DA MPB

Resultado de imagem para JESY BARBOSA

Firme e forte neste propósito de manter viva a memória musical do nosso país, hoje trago para os amigos leitores o nome de Jesy de Oliveira Barbosa, ou como ficou popularmente conhecida, Jesy Barbosa. Carioca de Campos, filha de um jornalista e mãe musicista, a música sempre esteve presente em sua casa e seu gene a partir da mãe. Tanto é verdade que ainda criança teve início as aulas de canto e já arriscava os primeiros acordes ao violão. A sua carreira profissional teve início em 1928, na Rádio Sociedade, no Rio de Janeiro a convite de Roquete Pinto. Jesy foi uma das pioneiras da gravadora Victor quando, em 1928, lançou seu primeiro disco. Tendo um total de 26 discos, interpretou canções de diversos autores, dentre eles Marcelo Tupinambá, Joubert de Carvalho, Cândido das Neves, Gastão Lamounier e Henrique Vogeler. Com uma carreira fonográfica relativamente curta ainda conseguiu uma certa projeção a partir das canções "Minha viola" e "Sabiá cantador" (ambas de Randoval Montenegro), "Volta" (1930, de M. Lopes de Castro) e  "Queixas" (1932, de Zelita Vilar e Rhea Cibele). Há uma passagem interessante na carreira da cantora ocorrida após ser eleita Rainha da Canção Brasileira em 1930, em concurso promovido pelo Diário Carioca. A artista, foi elogiada pelo príncipe de Gales, futuro rei Eduardo VIII da Inglaterra, que visitava o Rio de Janeiro e em sua homenagem chegou a gravar o tango "Príncipe de Gales". Além de cantora vale o registro do seu envolvimento  com as mais variadas atividades intelectuais: foi contista, teatróloga, conferencista e poetisa, tendo publicado inclusive o livro "Cantigas de quem perdoa", pela editora paulista Livraria Freitas Bastos, 1963. Sem contar a sua passagem por várias revistas, jornais e Rádio Globo, onde foi redatora durante nove anos, além de radioatriz, novelista e apresentadora.

Como já dito, a sua discografia teve início em novembro de 1928 pela Victor com o registro das canções "Olhos Pálidos" (de autoria de Josué de Barros) e "Medroso De Amor" (composta por Zizinha Bessa). Neste mesmo ano gravou "Balaio" (da lavra de Marcelo Tupinambá), "Cismando" (escrita por Rogério Guimarães) e "Quero Um Homem Bem Vestido" (feita por B. M. De Souza). No ano de 1930 anda pela Victor gravou canções como "Coração De Cabocla" (Plínio Brito), "Minha Viola" (Randoval Montenegro), "Flor Que Ninguém Colheu" (Mário Lopes de Castro), "Cantiga" (Marcelo Tupinambá / C. Neto), "Amor" (E. Goulding / Elsie Janis / Adpt. Ted Eastwood), "Romance Sertanejo" (João Valença / Raul Valença), "Lenda Sertaneja" (Cândido das Neves "Índio"), "Eu Gosto Assim" (Domingos Magarinos / Mário Lopes de Castro), "Saudade Danada" (Joubert de Carvalho), "Quem Ama Vive A Sofrer" (Sátiro de Melo) entre outras. No ano de 1930 ela só fez um registro fonográfico que foi lançado em agosto pela Victor sob o 78 RPM 33.320 com as canções "Canta Canta Passarinho" (Sátiro de Melo) e "Coração Magoado" (Josué de Barros). Na década de 1930 os seus primeiros registros fonográficos de Jesy lançados deram-se em fevereiro de 1931 com as canções "Coração Fecha Os Ouvidos" (Zizinha Bessa / Osvaldo Orico) e "Fruta Do Mato" (Randoval Montenegro / Domingos Magarinos). Esta que seria a sua última década de registros fonográficos contou ainda com mais  28 registros entre os anos de 1931 e 1933, sendo os dois últimos não mais pela Victor, gravadora onde a cantora fez a maioria dos seus registros. Estes dois últimos 78 RPM saíram um pela Columbia com as canções "Saudades do Arranha-céu" e "Olhos Perdidos" (ambas de J. Thomaz / Orestes Barbosa) e o outro pela Parlophon, com as faixas "Impossível" e "Príncipe De Gales".












FEV/1931 - 78 RPM (Victor 33.406)
1. Com Iaiá É Assim (Cândido das Neves "Índio")
2. Coração Que Esqueceu (Randoval Montenegro) 


MAI/1931 - 78 RPM (Victor 33.439)
1. Porquê Chóro (Joubert de Carvalho / L. Gonzaga)
2. Gostar De Alguém (Crísio Fontes / Joubert de Carvalho) 


JUL/1931 - 78 RPM (Victor 33.449)
1. No Alto Da Serra (Roberto Borges / J. C. Marinho)
2. A Casa Da Serra (Rosina Mendonça / Nunes da Silva) 


AGO/1931 - 78 RPM (Victor 33.455)
1. Saudade Que Mata (Jota Machado)
2. Melodia Do Coração (Jota Machado) 


SET/1931 - 78 RPM (Victor 33.464)
1. Lábios Que Mentem (João Martins / Carlos Medina)
2. Rolinha (Renato M. Leão De Aquino) 


NOV/1931 - 78 RPM (Victor 33.486)
1. Se Me Abandonas (Aldo Taranto / André Filho / Nascimento)
2. Baianinha (Freire Júnior / Henrique Vogeler) 


MAR/1932 - 78 RPM (Victor 33.541)
1. Queixas (Rea Cibele / Zelita Vilar)
2. Meu céu, onde estás? (Ademar Rich / Brodt Filho) 


JUN/1932 - 78 RPM (Victor 33.416)
1. Joias Farsas (Catulina Amazonense)
2. A Viúva Do Maneco (Catulina Amazonense) 


JUN/1932 - 78 RPM (Victor 33.559)
1. Lá Dos Pampas (Gastão Lamounier)
2. Sabiá Cantador (Randoval Montenegro) 


MAR/1933 - 78 RPM (Victor 33.632)
1. Um Beijo Não É Pecado (Gastão Lamounier / Valdo Abreu)
2. Saudade De Uma Saudade (Zelita Vilar / Réa Cibele) 


JUN/1933 - 78 RPM (Odeon 11.024)
1. Ninho Desfeito (Zelita Vilar / Réa Cibele)
2. Nunca Mais (Réa Cibele / Zelita Vilar) 


OUT/1933 - 78 RPM (Victor 33.707)
1. E Nada Mais (Homero Dornelas / Bastos Carvalho)
2. Qué Mas Finge Não Querê (Alfredo Dourado / Gilberto de Andrade) 

SR. BRASIL - ROLANDO BOLDRIN

ROBERTO CARLOS JÁ LANÇOU 24 DISCOS QUE TEM PRATICAMENTE A MESMA CAPA - PARTE 01

Por Carlos Viegas


Se você perguntar para um fã do Roberto Carlos qual é o seu disco preferido do Rei, há quase 50% de chances deste fã responder que prefere “aquele disco em que o cantor aparece na capa vestido de azul posando para a foto com o cabelo na altura dos ombros”. Falando assim, parece que Roberto tem em sua discografia um grande disco que é o preferido entre quase metade dos fãs, né? Mas a verdade é que a discografia do cantor é bastante equilibrada entre cada lançamento. O fã provavelmente preferiria um disco cuja capa fosse como a descrita anteriormente por uma questão matemática mesmo: dos 49 discos lançados pelo cantor até hoje, 24 trazem em sua imagem frontal uma foto com essas características. Olha só:



Neste universo de 24 capas, há algumas variações, é verdade. Às vezes, o azul no fundo é tão escuro que quase parece preto (como em 1979 e 1991). Algumas fotos são clicadas em estúdio e outras são registradas ao ar livre, com variações no traje usado pelo cantor, que vai do jeans surrado de 1993 (obviamente azul) ao suéter azul bebê de 1980 (praticamente um João Doria vintage). Às vezes, o Rei está mais despojado; em outras vezes, mais elegante. Às vezes, prefere encarar a câmera; em outras vezes, mirar o horizonte ou algum objeto aleatório e, em uma pequena quantidade de capas, olhar assustado para algo que aparentemente está ao lado do fotógrafo, como fez em 1974 e 1978. Tudo isso, no entanto, sem abandonar a já citada fórmula.

Comparar o mosaico de capas de Roberto Carlos com as artes nas capas de qualquer outro artista causa, inicialmente, estranhamento. Pesquisadores das mais diversas áreas têm se dedicado a estudar a função da capa do disco no sucesso destes produtos. Chegou-se já a concluir, por exemplo, que o álbum Dark Side Of The Moon, do Pink Floyd, deve uma boa parte de seu sucesso à capa com o prisma e as cores do arco-íris. A capa de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, é mais conhecida do que qualquer música registrada naquele álbum e, logo, cumpre função importantíssima na perpetuação deste álbum como peça reconhecida e fundamental dentro da cultura pop. Com a capa do álbum sendo assim tão importante, não parece desperdício que Roberto Carlos tenha colocado em circulação capas tão iguais e monótonas que sequer ajudam a diferenciar um disco do outro?

A resposta é: não necessariamente.

Como mostram os pesquisadores da cultura pop, a função primordial da capa do álbum é ilustrar o conteúdo do disco, seja de forma direta ou indireta. Em uma primeira análise, portanto, a capa diz muito sobre o álbum. Em uma segunda análise, uma reunião de todas as capas já lançadas por um artista diz muito não só sobre cada álbum em si, mas também sobre o próprio artista e sua trajetória de maneira mais ampla. Neste sentido, a repetição de capas diz muito sobre o artista Roberto Carlos e a sua relação com os fãs. Acreditem: a repetição, no caso de Roberto, também cumpre função importantíssima na construção do mito sobre este artista.

Sem ir muito longe, podemos imaginar que a repetição dos modelos de capa funciona como um aviso aos fãs de que o novo disco de Roberto Carlos traz o velho Roberto que todos conhecem. Ou seja: quando o disco novo vem a público com a capa quase igual à do disco anterior, o artista está comunicando aos fãs que o disco novo pode ser consumido sem desconfiança e que o fã não precisa se preocupar com o que vai encontrar quando for ouvir, pois não terá ali grandes surpresas. A manutenção das canções românticas, das letras reflexivas e ainda assim verbalmente simples… tudo estará igual como era antes. Tal manutenção talvez ajude a explicar a fidelidade do público do Rei desde o início dos anos 70.

A repetição do modelo de capa, com Roberto aparecendo sempre com a mesma cara e o mesmo cabelo ao longo de quatro décadas, ajuda também a emprestar atemporalidade aos discos. Nenhum disco dele tem uma “capa com cara de antiga”, porque a capa de 40 anos atrás é igual à do último disco lançado pelo cantor. Essa intenção de Roberto, de fazer com que o seu repertório seja atemporal, está expressa também em seus shows, onde músicas de diferentes décadas aparecem lado a lado niveladas por arranjos semelhantes que fazem com que o ouvinte nem note que pulou da década de 70 para a década de 90 em dois minutos. Quantos outros artistas conseguem fazer isso?

Por falar em shows, o roteiro das capas de Roberto Carlos só tem mudado um pouco quando os registros são realizados ao vivo. Nestes trabalhos, a pose solitária do cantor ganha a companhia de um pedestal e só sofre a interferência de uma segunda pessoa em cena quando esta pessoa assina a autoria do trabalho junto com o Rei: caso do tributo a Tom Jobim dividido com Caetano Veloso (e note que mesmo nesta capa o pedestal aparece no cantinho).



Em seu Acústico MTV, o cantor também dá espaço na capa para um violão, que simboliza ali o projeto em parceria com a emissora norte-americana, em raro momento recente em que a capa de um álbum seu conversa diretamente com o conteúdo. O disco, no entanto, é uma peça à parte na obra de Roberto Carlos, tanto pelo formato estético quanto pela iniciativa comercial de se aliar a uma emissora de TV que não seja a Globo. É um disco fora do padrão por tudo isso e a capa ilustra tal especificidade.

Mas nem sempre Roberto Carlos foi assim…

sábado, 19 de agosto de 2017

PETISCOS DA MUSICARIA

Por Joaquim Macedo Junior


ASA BRANCA, HINO NACIONAL DO NORDESTE

Asa Branca: 70 anos

O pernambucano Luiz Gonzaga e o cearense Humberto Teixeira compuseram “Asa Branca”, há 70 anos. A história deste hino só se renova. A primeira gravação, de 03 de março de 1947, pela RCA, é impecável, na voz de Gonzagão.

Antes de iniciar o artigo de hoje, tive o cuidado de verificar nos arquivos de nosso “Besta Fubana” o que o portal-jornal já havia produzido neste ano especial sobre a matéria.

Sim, claro, como veículo que aborda de política a futebol, de economia a culinária, mas principalmente por ser a voz digital mais importante do país no que se refere a coisas da terra – Pernambuco, Nordeste -, registrando, descobrindo, compilando, traduzindo e explicando de onde vem tanta criatividade, inventividade e originalidade do artista nordestino, procurei não ser redundante.

O “Besta Fubana” tem mesmo o diferencial de trazer entre seus colaboradores, articulistas, caricaturistas, ensaístas colunistas, alguns grandes artistas que de punho próprio escrevem para o veículo, como Jessier, Xico Bizerra e outros da música, da poesia, do cordel, das artes plásticas, do repente, das danças e dos ritmos.

Entre os artigos que trataram já neste ano do septuagésimo aniversário do clássico está o do nosso pesquisador, estudioso e agitador cultural, o amigo Bruno Negromonte, que trouxe um delicioso compêndio de gravações de “Asa Branca”, cantadas em 7 línguas estrangeiras. Muito bom, Bruno….

Aqui, trago minha contribuição para essa efeméride, com três vídeos, que considero marcantes na trajetória da canção de Gonzaga e Teixeira.

A gravação original, de 1947; a versão com onomatopaicos de gemidos, do exílio de Caetano Veloso, em Londres, que imprimiu status internacional à obra de Gonzaga e Teixeira, em 1971; e a versão lapidada e completa da música, feita pelo Quinteto Violado, de 1972:

1 – Original


2 – Com Caetano

3 – E a do Quinteto Violado.

Eu também gosto muito de “A Volta de Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas.

Noutro dia, a gente fala sobre isso.

Semana que vem, tem mais.

COM 20 ANOS DE CARREIRA, CRISTIANE QUINTAS É PÉROLA AOS POUCOS

Artista pernambucana radicada no Canadá já há algum tempo, Cristiane usa a saudade como combustível para a sua arte

Por Bruno Negromonte




É inegável a relevância da música pernambucana no cenário músico-cultural do nosso país. Pernambuco presenteou o Brasil como nomes representativos nos mais variados estilos musicais existentes: Capiba e Nelson Ferreira (como representantes máximos do gênero-identidade do Estado, que é o frevo) Luiz Gonzaga, Marinês e Dominguinhos (xotes, baiões e xaxados), Reginaldo Rossi (no gênero denominado brega), Fernando Lobo (relevante compositor brasileiro e pai do não menos importante Edu Lobo), Moacir Santos (que como diria Vinícius de Moraes"Não és um só, é tantos como o Brasil de todos os santos"), o músico Walter WanderleyGeraldo Azevedo, Naná VasconcelosAlceu Valença como exponentes da geração pós bossa-nova e tropicalismo, assim também Chico Science como exponencial da música produzida em nosso estado a partir dos anos de 1990 e que por conseguinte voltaria os holofotes para trabalhos de nomes como Lenine, Lula Queiroga, Silvério Pessoa, SibaMestre Ambrósio, Cascabulho, entre outros nomes que a partir do movimento denominado Mangue Beat. Com o advento da tecnologia nesta nova era digital e a reviravolta no mercado fonográfico dos anos 2000 em diante, a música pernambucana foi somando forças à sua tradição, buscando aglutinar diversos e distintos gêneros e influências a partir de mais um sem fim de de artistas que brotam a cada oportunidade surgida e reverberam a sua arte nos quatro cantos do planeta como é o caso de nomes como a SpokFrevo Orquestra, a Orquestra Contemporânea de Olinda entre outros nomes que reafirmam, em tempos onde aquilo que se vende por cultura é de qualidade duvidosa, a importância pernambucana no cenário musical nacional.




É neste novo contexto que surge um novo nome neste incessante cenário musical, trata-se da cantora, instrumentista, escritora, crítica literária e compositora Cristiane Quintas. Inquietamente criativa (assim como a música produzida em Pernambuco), a designer Quintas além de atuar nas artes plásticas, traz em sua bagagem a sua chancela em diversas produções literárias infantis ao longo dos últimos anos. Como exemplo desta afirmação há o livro "Cantando com os animais", que chegou ao mercado editorial pelas mãos da Editora Bagaço em outubro de 2005 na Bienal do Livro. Este disco merece destaque levando em consideração que foi ele que oportunizou a cantora e compositora a gravação do seu primeiro CD. Sendo complemento do projeto literário, o disco traz a partir de temas infantis toda a criatividade musical e interpretativa da artista em questão. O sucesso foi tamanho que a primeira edição desta produção literária esgotou-se em apenas dois meses e foi adotado em algumas escolas do Recife como paradidático. No entanto acho válido o seguinte comentário: apesar da artista já contar com 26 títulos em sua bagagem e trazer como proposta profissional a finalidade de iniciação musical para pequenos, foi na música onde ela primeiro se destacou. Tanto é verdade que sua produção bibliográfica traz como uma das principais marcas essa indissociável relação entre a ludicidade, música e o contexto literário. Um trabalho que destaca a música como elemento facilitador para a formação de pequenos leitores. Para atender a esta proposta, dentre outros títulos, a escritora e pedagoga traz em sua bagagem"A fuga da bailarina", "O galo sapateador", "A centopeia", "Os mundos de Tita e Bete", "Era uma vez nosso mundo", entre outros.



Além desse contexto literário, Cristiane traz em sua biografia profissional outro momento de merecido destaque: embasada em temas que permeiam o universo infantil, buscou somar forças à poesia e inspiração do compositor Xico Bizerra e junto fizeram o projeto "Ser tão criança" (onde é possível ser encontrado no site www.passadisco.com.br). Compositor que abrange os mais distintos gêneros existentes na música brasileira,  Xico até então não possuía experiências maiores no nicho infantil, mas respaldado na experiência litero-pedagógica de Quintas foram capazes de gerar um dos mais belos e singelos título da exitosa série Forroboxote (primeiro dedicado às criançasdo compositor cearenseÉ um disco que conta com  a participação de nomes de destaque da música pernambucana a exemplo de Geraldo Maia e Nena Queiroga e abrange os mais distintos gêneros da cultura nacional como xotes, cocos, sambas de latada entre outros a partir de temas referentes a natureza, fenômenos naturais, a fauna entre outros presentes nas doze faixas do disco. 

Desse modo, o talento abrangente de Cristiane Quintas reafirma que Pernambuco é, antes de tudo, um estado marcado por uma diversidade cultural singular, e que apesar de todas as dificuldades existentes, busca manter sua cena viva a partir de toda a efervescência que lhe é tão peculiar. Neste cenário, nomes como o de Quintas destacam-se por reafirmarem um compromisso maior com a criatividade, a sensibilidade e a qualidade naquilo que compõe, fazendo com que o público futuro, baseado em boas letras e melodias, acabe por tomá-lo como referência positiva diante de tanta coisa que destoa daquela definição que muitos tem do termo música a partir de letras e canções muito bem elaboradas e executadas em combate a degradação da cultura como um todo. E esse compromisso a recifense vem assumindo desde que deu início a sua trajetória artística ainda nos anos de 1990 quando sob direção do parceiro musical Paulo Carvalho, estreou como cantora no espetáculo "O começo de tudo", onde apresentou um repertório pautado em nomes como Chiquinha Gonzaga, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Ao longo de duas décadas de carreira, a multifacetada artista fez incursões por projetos como "Quinta de cantoria" no teatro do parque, ao lado de Publius Figueiredo, Edmilson e Antonio Lisboa, Maria da paz e muitos outros; esteve presente, em 2005, na abertura do show do violonista Yamandú Costa no saudoso Projeto Seis e meia e selou parcerias como nomes como o do já citado Paulo CarvalhoBia MarinhoZeh Rocha e Alberto de OliveiraÉ por essas e outras que afirmo de modo convicto aquilo que trouxe como título desta pauta: Cristiane Quintas é pérola aos poucos, e pode ter certeza: É um grande privilégio tomar conhecimento de trabalhos como o que ela desenvolve.





Maiores Informações:

Youtube - www.youtube.com/channel/UCWWdwsMPn6wLEThmknuaZzQ

PROGRAME-SE


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

CANÇÕES DE XICO


MADRUGADA, 3 HORAS


São 3 horas. Da manhã. E nada do sono chegar. Estará ele vindo de trem, dos antigos, maria-fumaça à frente, a puxar-lhe vagarosamente? Ou, pior ainda, estará vindo no lombo de um burro velho e preguiçoso? Suas contas estão em dia, seu coração passou recentemente por consulta e o doutor garantiu-lhe uma saúde boa. Também não fuma, bebe apenas socialmente e não faz maiores extravagâncias. Até dorme cedo, quando o sono lhe dedica amizade. Do ponto de vista amoroso sua situação também era 12 por 8. Sei apenas que são 3 horas. Da manhã. E o sono não chegou. Àquela altura melhor que não chegasse mais, pois dali a pouco haveria de levantar e começar um novo dia, igual aos últimos, parecido com os futuros, com todas as horas acordadas, todos os minutos despertos, todos os segundos alegres e saltitantes. Como agora. Embora o relógio marcasse 3 horas. Da manhã.

COMEÇA POR PINTAR A TUA ALDEIA...

Dando início a série de reportagens em comemoração aos 75 anos do cantor e compositor pernambucano Bráulio de Castro, hoje destacaremos a intrínseca relação entre a sua obra e o seu torrão natal

Por Bruno Negromonte





Nada mais adequada do que a citação do russo Leon Tolstoi para batizar esta matéria. Quando o escritor eternizou a frase "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia" não imaginava que anos depois, de modo inconsciente, alguns levariam a sério tal afirmação em um país tropical a milhares de quilômetros distância do autor. Da poesia à música, muitos nomes vem ao longo dos anos enaltecendo a beleza natural de canto a canto do nosso país. De um lado, fala-se da fauna em canções como "Urubu", "Passaredo", "O rouxinol", "As baleias" a partir de inspirações pontuais de compositores que ganharam notoriedade nacional; do outro nossa flora é enaltecida a partir de registros como "Sabor colorido", do cantor e compositor pernambucano Geraldo Azevedo entre tantas outras que registram em verso e prosa toda a diversidade que é peculiar ao nosso país. Soma-se a este contexto personagens como o índio (a exemplo de "Cara de índio" e "Um índio"), a preocupação com a preservação do meio ambiente ("Xote ecológico") e enaltação do mesmo ("Festa da natureza"). Somas-se a este contexto, não podemos deixar de citar nomes dos saudosos Dorival Caymmi (que fala com uma propriedade singular do mar, do chão e das peculiaridades da Bahia como poucos) e Luiz Gonzaga (que ao lado de seus notáveis parceiros foi capaz de retratar o Nordeste como um lugar unidimensional). E é neste Nordeste provinciano e de vasta riqueza natural, onde cada um dos seus recantos inspiram versos e melodias, que outros nomes buscam retratar a verdadeira identidade de uma região singular, onde o Sertão surge como espaço privilegiado, muitas vezes tomado como "o lugar em que reside a nossa autentica nacionalidade" como bem definiu Maria César Boaventura.



Foi nessa privilegiada região que nasceu Bráulio de Castro, cantor e compositor que chega hoje aos 75 anos de vida (onde cerca de seis décadas desta vem sendo dedicada à música). Filho de bom Jardim, cidade do agreste pernambucano localizada a pouco mais de 100 quilômetros da capital, o cantor e compositor cresceu entre a capital e esta cidade berço natal de grandes musicistas e que por isso chegou a ser batizada também como "a terra da música". Na infância e juventude teve a oportunidade de conviver com nomes como o do maestro Levino Ferreira (nome que se destacou como um dos maiores compositores do estado a partir de valsas, maracatus, peças folclóricas e religiosas, e principalmente frevos). Autor de significativo destaque no gênero frevo-de-rua, Levino teve uma intrínseca relação com o avô de Bráulio de Castro, o escultor e músico Admário Gomes de Castro presidente fundador em 22 de outubro de 1932 do Grêmio Litero Musical Bonjardinense. Soma-se a estes, outros músicos a exemplo de Airton Barbosa (Fundador do Quinteto Vila Lobos), Mestre TetéDinamérico SedíciasDimas Sedícias, Maestro Correia de CrastoJosé Pessoa Sedícias (o Zé Bague) que corrroboraram não apenas para despertar o interesse do menino Bráulio como também, anos mais tarde, serviram de inspiração para algumas das canções que compôs relacionadas a cidade que lhe deu a régua e o compasso da composição. Vale o registro também de uma bucólica beleza e de um cotidiano que já não é mais possível observar nas cidades interioranas, mas que vive nas reminiscências do compositor inspirando-o para traduzir e eternizar em versos e canções muito daquilo que lhe constitui.

Com 51 canções dedicadas ao seu torrão, Bráulio de Castro é, sem sombra de dúvidas, o compositor que mais enalteceu sua terra natal. Não há compositor que dentro de sua obra já tenha dedicado 52 canções ao seu berço natal (se existe, desconheço). De modo despretensioso, o bonjardinense registra, com olhar clínico e lírico os casarões em estilo europeu, as Igrejas, a Pedra do Navio (que ilustrou a capa do primeiro álbum em homenagem a cidade), entre outras paisagens e personagens que eternizaram-se a partir da voz do próprio compositor assim como também do auxílio luxuoso de nomes como o de Fátima de CastroMaciel Melo, Caju e Castanha, Genival Lacerda, Walmir Chagas, Expedito Baracho, Ivan Ferraz, Dominguinhos, Petrúcio Amorim, Sagrama, Djalma PiresCoral Batutas de Bom Jardim entre outros nomes de relevante expressão do cenário musical que contribuíram com talento e sensibilidade para eternizar, sem sombra de dúvidas, o município mais enaltecido em verso e prosa do Estado de Pernambuco a partir de três excelentes álbuns lançados: "Meu Bom Jardim" (lançado ainda na década de 1990), "Bom Jardim - Terra da música e das flores de ouro" e "Minha terra" (lançados ao longo da última década juntamente com os livros "No Tempo da Pândega e do Deboche" e "Arrancaram os olhinhos do cavalo e outras estórias eplopéticas"Vale o registro que o autor e compositor ainda tem em sua bibliografia o livro "Vamos lá Dentro – No Tempo da Bacia d’Água", pela Editora Bagaço, que traz como tema histórias presenciadas e ouvidas sobre a vida boêmia e notívaga da capital pernambucana a partir da avenida Rio Branco, famoso reduto onde mulheres, em décadas passadas, se prostituíam.  

Merecedor de reconhecimento por parte do Guinness World Records como o autor musical que mais enaltece a sua terra a partir de registros fonográficos, o compositor pernambucano vem sendo capaz de traduzir em arte peculiaridades extraídas de uma memória privilegiada e lembranças de uma época que hoje só existe no imaginário popular de sua região a partir de personagens como Dona Santa Parteira, Mestre Faustino, Beatriz dos espelhos, Dotô Mota, Zé Bague, Benedito e o seu terno, Marly Mota,  Viana, Cabo Velho, Mestre Noventa, Zé Gomim, entre outros. Há também o registros da típica rotina interiorana onde Bom Jardim, longe dos holofotes tão comum aos grandes centros urbanos, ganha destaque na música popular brasileira a partir dos mais distintos gêneros existentes em nosso cancioneiro. Essa gama de ritmos impressiona não apenas por sua diversidade, mas por enaltecer uma cidade coadjuvante mas que aos olhos de um filho apaixonado passa a protagonizar valsas, frevos, forró ou qualquer outro gênero. Se muitos falam (mesmo que de modo pontual) do sertão, do litoral, Rio de janeiro, Bahia, Salvador e afins; No entanto, só um foi capaz, sem maiores pretensões, de eternizar uma cidade com tamanha cumplicidade, sensibilidade e lirismo. Com sete décadas e meia de vida e uma memória privilegiada, não é de se espantar que Bráulio de Castro, ilustre filho de Bom Jardim, ainda contribua (e muito) na confecção desse genuíno e sonoro cartão-postal.

A HISTÓRIA MUSICAL DO RÁDIO NO BRASIL

As dez canções mais populares no Brasil em 1967 (há exatos 50 anos) eram as seguintes:

01º - Gina – Wayne Fontana
02º - Coração de Papel – Sergio Reis
03º - Namoradinha de Um Amigo Meu – Roberto Carlos
04º - Love Me, Please Love Me – Michel Polnareff
05º - A Praça – Ronnie Von
06º - O Bom Rapaz – Wanderley Cardoso
07º - Bus Stop – Hollies
08º - Travessia – Milton Nascimento
09º - Quando – Roberto Carlos
10º - Somethin Stupid – Nancy Sinatra & Frank Sinatra

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

GRAMOPHONE DO HORTÊNCIO

Por Luciano Hortêncio*




Canção: A Morena

Composição: Chiquinha Gonzaga - Ernesto de Sousa

Intérprete - Vânia Carvalho

Ano - 1979

LP - Chiquinha Gonzaga - Evocação II.



* Luciano Hortêncio é titular de um canal homônimo ao seu nome no Youtube onde estão mais de 10.000 pessoas inscritas. O mesmo é alimentado constantemente por vídeos musicais de excelente qualidade sem fins lucrativos).

OTTO FALA DE DOR, AMOR E DO BRASIL EM SEU NOVO DISCO

Cantor faz da poesia uma aliada para falar dos temas. Roberta Miranda e Andreas Kisser são convidados especiais do artista pernambucano

Por Fellipe Torres



"Canto o amor. O amor político, social, irrestrito" (Otto, músico) (foto: Zenza Said/divulgação)


Ficou difícil avaliar a discografia de Otto depois de 2009, quando o cantor e compositor pernambucano surpreendeu público e crítica com o sexto e (de longe) melhor álbum de sua carreira, Certa manhã acordei de sonhos intranquilos. Comparações à parte, o recém-lançado Ottomatopeia, sucessor de The moon 1111 (2012), apresenta faixas muito boas, sem, no entanto, causar tanta empolgação pelo conjunto da obra.

Produzido pelo conterrâneo Pupillo (da banda Nação Zumbi), parceiro de longa data, o álbum tem pontos altos justamente em dois “rescaldos”. Meu dengo (1986) havia sido regravada em dueto com Roberta Miranda (de quem Otto se diz fã) para a trilha do longa-metragem Quase samba (2015), de Ricardo Targino. Teorema, por sua vez, reuniu o suingue paraense das guitarras e teclado de Manoel e Felipe Cordeiro para compor o filme Sangue azul (2014), de Lírio Ferreira.

“Teorema é uma canção sobre amor, não chega a ser sofrência. É um som do Norte, com participação de grandes mestres contemporâneos da música feita por lá. É um som para dançar, para beber, para amar. É para safadeza”, diverte-se Otto.

Ottomatopeia se insere no contexto de uma certa continuidade discográfica de sua carreira, acredita o cantor. “Meus discos falam a mesma língua, vêm das mesmas essências, dos mesmos ancestrais. Vêm do urbano brasileiro, da interação, da homogeneidade. Eles são brasileiros do mundo, do universo. Se as pessoas acham que falo de dor, falo sim. Mas, na real, falo de amor. Canto o amor – o amor político, social, irrestrito”, defende.

O cantautor pernambucano revela que escreve diariamente. “Vivo de poesia. Morrerei poeta. Viverei poeta. Dançar é minha amplitude, é o que mais gosto. Cantar também, mas dançar é o meu gozo”, diz.


PEGADA

Anunciado como um disco de pegada mais rock, Ottomatopeia, na verdade, chama mais a atenção por forçar a mão nos sintetizadores e instrumentos percussivos. Felizmente, algumas (poucas) faixas saem ganhando com essa decisão – caso de Atrás de você (uma das mais notáveis do repertório) e É certo o amor imaginar?, cadenciada pelo coral formado por Bruno Giorgi, Marco Axé, Bactéria e Gustavo da Lua. “Essa é uma das músicas de que gosto para o show. Muito simples, é só esta pergunta: É certo o amor imaginar? A gente deveria fazer essa pergunta. Politicamente, também. Vamos imaginar uma coisa melhor. É um balanço, um suingue, a bateria... Uma música que se despedaça”, define Otto.

Das 11 faixas, outro destaque positivo é Bala, lançada como single antes de o disco sair – decisão acertada, pois se trata de uma boa candidata a hit. Escolhas menos impactantes são a parceria com o veterano compositor Zé Renato (Carinhosa) e o encerramento com Orumilá, com a participação do guitarrista Andreas Kisser (Sepultura).


Otto por Otto

OTTOMATOPEIA

Nesse disco, atravesso de novo o Brasil, vou a Belém, a Pernambuco... Nunca teria um estilo único de música. O disco sempre vai ter camadas contemporâneas. Sempre será conceitual, vou transmitir alguma história, um momento meu, um Otto atual, essa mistura. Posso garantir que não saí do que sou. Só fiz outras coisas.


ÍDOLO

Uma das pessoas que me fizeram ser quem sou foi Reginaldo Rossi. Se puder cantar tudo como ele cantou, de tango, bolero, samba... Ele foi um intérprete incrível, um visionário, ensina que palco é isto: sentimento, show. E que o público é um ser íntimo, com quem a gente precisa fazer trocas. Falo em nome de muita gente que ouve minhas músicas.


BRASIL

O disco foi feito durante cinco anos, enquanto aconteciam muitos problemas no Brasil. A musicalidade do álbum reflete esse momento do país. O Brasil está em um caos tremendo, uma ruptura da democracia terrível. A gente vai ter que sobreviver a isso tudo com muita clareza. Estou com 49 anos e sou uma pessoa que vê as pessoas muito do alto. Em breve, o Brasil voltará por mãos mais conscientizadas. A justiça vai ser feita. A bala que dispara contra o tempo volta. A gente vai passar por toda essa luta e vai retomar. O mal não cabe. Ele explode. Ele derrete. Ele se extermina. Quando a gente nasce, é para sermos bons. Não é mais questão de direita ou esquerda, é questão de justiça. As questões sociais, humanísticas, os avanços que aconteceram... Tudo isso reforça a necessidade de eleições diretas, da retomada do povo e de suas escolhas. Para um bom esquerdista, a vitória sempre virá.


INFLUÊNCIA

Vi uma exposição em Paris (do fotógrafo japonês Araki Nobuyoshi). Minha mulher me apresentou Araki e juntei as torturas sexuais (presentes nas obras dele) com a tortura brasileira de 1964, com (o presidenciável Jair) Bolsonaro. A arte faz isso. O sexo e a tortura estão muito próximos. O encarte do disco tem cenas de tortura. Sugere que a gente não pode mais ser conservador, não pode continuar nessa onda política de mercado, senão vai virar refeitório e paiol de americano.


CARREIRA

Sempre me senti humilde e abençoado de ter conhecido Fred (ZeroQuatro), Chico (Science), a música da minha terra... A vida das pessoas é como um gráfico. Venho subindo, aprendendo a cantar, aprendendo a viver com paciência. Não busquei nada disso. Sei da minha importância. Tenho um público que está sempre comigo. Com a internet, isso aumenta mais ainda. Estou nesse caminho, assim como a música contemporânea pernambucana, como o cinema pernambucano, buscando alcançar um padrão de arte e passar uma informação para o público.



OTTOMATOPEIA

• De Otto
• 11 faixas
• No Hay Duda Produções
• Disponível nas principais plataformas digitais
• Informações: www.nohayduda.com.br

PROGRAME-SE


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

GARGALHADAS SONORAS

Por Fábio Cabral (Ou Fabio Passadisco, se preferir)


Resultado de imagem para passadisco

Cliente chega na loja:

Que bom... Cheguei no lugar certo; quero até o meio dia um MP3 com tudo de Luiz Gonzaga. É mais de 10 paus?

Tô com pressa, vou viajar no fim da tarde... etc, etc, etc.

HERMETO PASCOAL LANÇA NOVO DISCO E DIZ: 'MINHA MÚSICA É ATUAL'

O 'Bruxo' usa piano, tamanco, flauta, colher e berrante para criar melodias das 18 faixas inéditas. Até silêncio o inspira

Por Ana Clara Brant


Aos 81 anos, Hermeto Pascoal garante: 'A cabeça funciona que é uma beleza'
(foto: Bárbara Cabral/Esp.CB/D.A.Press)


Os sons, sobretudo da natureza, sempre fascinaram Hermeto Pascoal. Quando menino, no interior de Alagoas, ele “compunha” os mais variados tipos de ruídos. Com o canudo de mamona de jerimum, fazia um pífano e tocava para os passarinhos. Na lagoa, passava horas fazendo música em parceria com a água. O material do avô ferreiro era pendurado num varal. E ali ficava Hermeto, tirando sons.

“O som está em todos os lugares, até no silêncio. Som é tudo. Só para você ter um exemplo, quando a gente vai para o topo da montanha e fica ali parado, o que escutamos é muito mais forte do que qualquer instrumento. É só se deixar levar. É preciso sensibilidade para perceber isso”, filosofa o compositor e multi-instrumentista.

Não poderia haver título mais apropriado do que No mundo dos sons para batizar o álbum recém-lançado pelo Selo Sesc, reunindo, depois do intervalo de 15 anos, o “Bruxo” e seu grupo. Contando com um time de primeira – Itiberê Zwarg, Rafael Altério, Fabio Pascoal (filho de Hermeto), Ajurinã Zwarg, André Marques, Jota P., Daniel Tápia, Flavio Scubi de Abreu, Olívio Valarini Jr., Thiago Baggio, Amanda Desmonts e Gregory Fenile –, o disco duplo traz 18 faixas inéditas. Boa parte delas presta homenagem a lugares (Viva São Paulo! e Salve, Pernambuco percussão!) e, principalmente, a pessoas – entre elas, Tom Jobim, Carlos Malta, Edu Lobo, Chick Corea, Astor Piazzolla, Miles Davis e Ron Carter.

“Quando a gente estava gravando, sempre me lembrava de alguém que queria homenagear, estivesse vivo ou não. Quer dizer, vivo todo mundo está. As pessoas que não estão mais neste plano estão vivas de outra maneira”, garante Hermeto.

A última faixa – Rafael amor eterno – é dedicada a um “anjo”: Rafael, bisneto dele e neto de Fabio Pascoal. O menino morreu com apenas 3 anos, em 2016. “Ele estava tomando banho de piscina quando, de repente, pediu para ir para o colo do vovô Fabio, meu filho. O Rafa comentou que estava meio cansado e acabou nos deixando. Deus o levou... Faço um solo de piano e ainda colocamos um áudio dele falando. Ficou uma coisa bem bonita”, revela.

O disco já está disponível nas plataformas digitais de streaming. Os shows de lançamento, no Sesc Pompeia, na capital paulista, estão marcados para 12 e 13 de agosto. Na próximas semanas, o CD físico chegará às lojas. Favorável às novas tecnologias, Hermeto acredita que o sistema da música digital só veio facilitar as coisas. “Ainda mais no caso de vocês, da imprensa. Se fosse esperar o disco chegar aí (na redação) via Correios, ia demorar demais. Você já baixou lá no seu computador, escutou. É prático demais, muito interessante. A única coisa que não acho muito legal nessa história de tecnologia é tocar em algo ligado ao eletrônico. Isso não dá pra mim. Para tirar som, tem que ser algo mais tangível, físico mesmo”, afirma.


TAMANCO 

No novo disco, a experimentação se faz presente mais uma vez. Entre os “instrumentos” utilizados por ele há piano, flauta, triângulo, bateria e pandeiros, mas também bacias, panelas de barro, bonecos, colheres de plástico, apito, berrante, canos de alumínio e até tamanco de madeira.

Por falar em objetos inusitados, desde que aprendeu teoria musical, Hermeto escreve partituras em qualquer coisa que vê pela frente. Qualquer mesmo: guardanapo, abajur, bandeja, copo, cartolina, chapéu e até assento de vaso sanitário.

“Meu processo de criação sempre foi pegar as coisas e sair tirando som. Quando aprendi teoria, as músicas iam surgindo na minha cabeça e queria dar vazão a isso. Escrevia as partituras onde dava, em qualquer objeto. Meu filho até sabe: quando a gente chega num restaurante, tem que esconder os guardanapos. Senão já viu... (risos). Pra você ter ideia, a tampa da privada deu três músicas, que ainda não foram gravadas. Uma nas beiradas, outra embaixo e a terceira composição no encosto”, diverte-se.

Com 81 anos de vida – completados em junho –, Hermeto Pascoal assegura: a saúde está ótima. Vez por outra, sente um pouco de dor nos dedos. Por isso, tem de fazer exercícios frequentemente. “Minha vista é incrível. Perdi meus óculos há um tempinho, foi quando percebi que não estava precisando mais deles. Conseguia enxergar tudo. E a minha cabeça funciona que é uma beleza”, ressalta.


RAPADURA DIET 

Mesmo a diabetes, descoberta há uma década, não é empecilho para nada. Aliás, ele adora doces. “Minha família tinha muita gente diabética. Só fui descobrir com 71 anos, então agradeço a Deus. Demorou bastante. Hoje, esses produtos diet facilitam muito. Continuo tomando o meu vinhozinho, mas pena que ainda não inventaram a rapadura diet. O dia em que fizerem, vou buscá-la onde for”, avisa.

Produzindo a todo vapor – tem agenda cheia para divulgar No mundo dos sons e lança outro disco em outubro, dessa vez com uma big band –, Hermeto diz que o segredo é não premeditar nada. “A gente tem que deixar fluir, sem pensar em nada, apenas sentir. Faço música desde que nasci, sempre com esse processo. Modéstia à parte, minha música é sempre atual. O negócio é esse: intuir e sentir”, conclui.



NO MUNDO DOS SONS
. Hermeto Pascoal & Grupo
. 18 faixas
. Selo Sesc
. Disponível nas principais plataformas de streaming
. CD físico: R$ 30

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